Seguíamos pela quinta vala de Malebolge.

O piche fervente continuava abaixo de nós, escuro, espesso, borbulhante. De vez em quando, uma alma subia à superfície, tentando aliviar a dor ou respirar fora daquela matéria viscosa. Mas os demônios Malebranche vigiavam com seus ganchos. Bastava um condenado emergir demais, e logo uma garra o fisgava, empurrando-o outra vez para dentro do piche.

A cena era repugnante.

Mas também era exata.

A corrupção vive de ocultamento. Em vida, aqueles homens haviam negociado cargos, decisões e favores no escuro. Tinham vendido aquilo que deveria servir ao bem comum. Tinham usado o governo como balcão, a autoridade como instrumento de ganho, a função pública como oportunidade privada. Agora estavam mergulhados numa substância negra que os escondia e queimava.

O piche era a verdade visível da corrupção.

Escuro.

Pegajoso.

Fervente.

Difícil de limpar.

Ao nosso redor caminhava a escolta dos Malebranche.

Alichino, Calcabrina, Cagnazzo, Barbariccia, Libicocco, Draghignazzo, Ciriatto, Graffiacane, Farfarello e Rubicante. Seus nomes soavam grotescos e ameaçadores. Eles riam, rangiam os dentes, faziam gestos violentos, olhavam para os condenados como cães famintos diante de carne. Malacoda os havia colocado para nos conduzir, mas eu ainda não confiava neles.

Como confiar em demônios dentro do círculo da fraude?

Virgílio permanecia firme, mas eu observava tudo com cautela. Aquela escolta não me parecia auxílio verdadeiro. Parecia armadilha adiada. Os demônios fingiam obedecer, mas a malícia deles vazava nos gestos. Em Malebolge, até a orientação pode ser falsa. Até a escolta pode ser ameaça. Até a informação pode carregar veneno.

Enquanto avançávamos, os demônios começaram a olhar com atenção para o piche.

Eles conheciam o comportamento dos corruptos. Sabiam que, como rãs à beira da água, eles emergiam por instantes e mergulhavam assim que percebiam perigo. O piche escondia os condenados, mas não os protegia completamente. A ocultação que lhes servira em vida agora era instável: precisavam esconder-se para não serem fisgados, mas o próprio piche era pena.

De repente, um condenado subiu mais do que devia.

Foi rápido.

Mas não rápido o suficiente.

Graffiacane, que estava mais perto, lançou o gancho e o fisgou pelos cabelos cobertos de piche. Puxou-o para cima como quem arranca uma lontra da água. A alma veio se debatendo, negra, pegajosa, queimada, tomada de terror.

Os demônios se alegraram.

Queriam rasgá-lo.

Um queria ferir-lhe os flancos.

Outro queria arrancar-lhe pedaços.

A brutalidade deles parecia quase infantil em sua crueldade. Riam, provocavam, disputavam quem teria o prazer de machucar. A corrupção, ali, era vigiada por uma espécie de quadrilha infernal tão baixa quanto o pecado punido. O ambiente inteiro era sujo: piche, ganchos, gritos, sarcasmo, medo, esperteza.

Virgílio interveio.

Pediu que antes de ferirem o condenado, deixassem-no falar conosco. Queria saber quem ele era. Barbariccia conteve os outros demônios, mantendo-os sob alguma disciplina, embora visivelmente contrariados. O condenado, tremendo, falou.

Era de Navarra.

Servira ao rei Tebaldo.

No mundo, fora envolvido em práticas de corrupção, vendendo favores e negociando interesses dentro da corte. Estava ali porque havia feito da função política instrumento de ganho. Não era tirano sanguinário, nem herege altivo, nem blasfemador como Capaneu. Era outro tipo de culpado: o homem de bastidor, o servidor que conhece os atalhos do poder, o intermediário que troca acesso por vantagem.

O corrupto navarrês representava bem aquela vala.

Ele não aparecia como grande figura trágica.

A corrupção costuma ser assim.

Nem sempre tem grandeza épica.

Muitas vezes é pequena, prática, cotidiana, técnica. Um favor. Um pagamento. Uma indicação. Um contrato. Uma proteção. Uma palavra ao ouvido. Uma decisão comprada. Uma porta aberta para quem paga. Uma porta fechada para quem não paga. O pecado parece menor porque acontece em pedaços. Mas, somado, destrói a justiça da cidade.

Os demônios queriam continuar ferindo-o.

Ele, porém, percebeu que talvez pudesse usar sua inteligência para escapar.

E aqui o canto se torna quase uma comédia infernal.

O condenado começou a falar com esperteza. Disse que conhecia outros italianos mergulhados ali no piche. Se os demônios se afastassem um pouco, ele poderia assobiar ou chamar, e outros condenados subiriam à superfície. Assim, os Malebranche poderiam capturar mais almas. A proposta parecia vantajosa para eles.

Mas era uma armadilha.

Um corrupto tentando enganar demônios.

A cena é irônica.

Na vala da fraude administrativa, o condenado continua fraudulento. Mesmo sob pena, tenta negociar, manipular, criar vantagem, explorar a expectativa do outro. Ele sabe que os demônios desejam caçar. Usa esse desejo contra eles. Promete entregar outros para ganhar oportunidade de fuga.

A corrupção permanece como hábito da alma.

Mesmo no Inferno, ele barganha.

Cagnazzo desconfiou.

Fez cara de quem percebe engano.

Disse que o condenado estava tentando preparar uma fuga. Mas Alichino, mais confiante ou mais vaidoso, respondeu que, se ele tentasse escapar, voaria atrás dele mais rápido que qualquer movimento. A aposta estava feita: a astúcia do condenado contra a arrogância do demônio.

O navarrês continuou.

Disse que chamaria outros se os demônios se afastassem para que eles não tivessem medo de emergir. Barbariccia ordenou que os demônios recuassem um pouco. Eles se colocaram atrás da rocha, prontos para saltar. O condenado ficou na borda do piche.

Eu observava, tenso.

Virgílio também.

A cena tinha algo de ridículo, mas era perigosa. Estávamos cercados por demônios, numa vala de corruptos, vendo uma negociação fraudulenta acontecer diante de nós. Era quase uma miniatura de Malebolge: cada um tentando enganar o outro, cada um calculando vantagem, cada um usando desejo, medo e oportunidade.

Então, no momento certo, o navarrês saltou.

Mergulhou de volta no piche.

Desapareceu.

Alichino lançou-se atrás dele, furioso, abrindo as asas para capturá-lo. Mas o condenado foi mais rápido. O piche, que era sua pena, tornou-se também seu esconderijo momentâneo. Alichino não conseguiu agarrá-lo.

Calcabrina, irritado ou talvez desejoso de ver Alichino fracassar, atacou o próprio companheiro.

Os dois demônios se agarraram no ar.

Caíram juntos dentro do piche fervente.

A cena explodiu em confusão.

Os outros Malebranche correram para socorrê-los. O piche grudava nas asas dos demônios, impedindo-os de levantar voo. Aqueles que vigiavam os corruptos agora estavam presos na mesma matéria que usavam como instrumento de pena. Precisaram ser puxados com ganchos pelos próprios companheiros.

Era grotesco.

E revelador.

A fraude cria um ambiente em que até os punidores se enredam. Os demônios, acostumados a manipular, rir e ferir, foram enganados por um condenado que continuava exercendo sua astúcia. A cena não é nobre. É baixa, quase cômica, mas moralmente precisa. No mundo da corrupção, todos tentam usar todos. Até os demônios perdem a compostura. A malícia se volta contra si mesma.

Alichino e Calcabrina, antes ameaçadores, tornaram-se ridículos.

Isso não os torna menos perigosos.

Mas mostra a baixeza daquele círculo.

No Inferno da fraude administrativa, não há grandeza trágica. Há piche, gritaria, engano, tropeço, queda, disputa interna. O mal aqui é sujo e farsesco. Dante parece nos obrigar a perceber que a corrupção não merece aura de inteligência superior. Ela pode parecer sofisticada nos palácios, mas sua verdade espiritual é uma cena de demônios caindo no piche.

Enquanto os Malebranche se ocupavam com a confusão, Virgílio percebeu que a situação se tornara perigosa para nós.

A escolta já era suspeita; agora estava humilhada e irritada. Demônios envergonhados são ainda mais perigosos. A qualquer momento poderiam voltar sua raiva contra nós. A trégua baseada na ordem de Malacoda e na disciplina de Barbariccia estava enfraquecendo.

O Canto XXII permanece na quinta vala de Malebolge, entre os corruptos mergulhados no piche e os demônios Malebranche. Um corrupto navarrês é fisgado, conversa com Virgílio e engana os demônios prometendo chamar outros condenados; em seguida, foge de volta ao piche, fazendo Alichino e Calcabrina caírem na substância fervente.

Essa cena me ensinou algo importante sobre a fraude.

Ela não forma verdadeira comunidade.

Os corruptos se escondem.

Os demônios se atacam.

O condenado entrega outros para salvar a si.

O guarda tenta usar o preso.

O preso engana o guarda.

O companheiro derruba o companheiro.

Tudo é cálculo.

Tudo é oportunidade.

Tudo é desconfiança.

No mundo da fraude, a confiança não existe como bem; existe apenas como recurso a ser explorado. E, quando todos fazem isso, a sociedade vira piche: cada um tentando emergir sem ser fisgado, cada um pronto para puxar o outro para baixo, cada um rindo enquanto o outro afunda.

Seguimos atentos.

Virgílio compreendia que precisaríamos escapar daquela escolta.

Eu também sentia.

A vala dos corruptos ainda não havia terminado, mas sua lição já estava clara: quem transforma o serviço público em negócio privado acaba mergulhado na própria opacidade. E quem vive de enganar pode até enganar demônios por um instante, mas não sai da condenação.

O navarrês fugiu dos ganchos.

Mas não fugiu do piche.

Essa é a ironia final.

Ele enganou os demônios, mas permaneceu no mesmo lugar.

A fraude pode produzir pequenas vitórias dentro do mal.

Mas não liberta do mal.

Ela apenas muda a posição do condenado dentro da própria prisão.