Deixamos a quarta vala.

A procissão dos adivinhos ficou para trás, ainda caminhando com as cabeças torcidas para as costas, condenados a olhar para trás porque, em vida, quiseram ver o futuro de modo ilícito. A imagem deles permanecia em mim como advertência: quem tenta possuir o amanhã perde a postura correta diante do presente. Virgílio havia me repreendido por chorar diante deles, ensinando-me que a piedade, quando se opõe ao juízo, deixa de ser virtude.

Agora seguíamos para a quinta vala de Malebolge.

O oitavo círculo continuava se mostrando como uma arquitetura de fraudes. Cada vala descia mais fundo na perversão das relações humanas. Sedutores falsificavam o amor. Aduladores falsificavam a palavra. Simoníacos falsificavam o sagrado. Adivinhos falsificavam a relação com o tempo. Agora eu veria uma fraude ligada ao governo, ao dinheiro público, ao comércio de cargos, às decisões vendidas, à corrupção administrativa.

À medida que avançávamos pela ponte, percebi uma escuridão diferente abaixo de nós.

Não era apenas sombra.

Era algo espesso.

Denso.

Pegajoso.

Como num arsenal de Veneza, onde no inverno se ferve o pez para reparar navios danificados, vi abaixo uma substância negra borbulhando. Mas ali não havia trabalhadores preparando embarcações, nem atividade útil, nem artesanato voltado à navegação. Havia uma vala inteira cheia de piche fervente.

O líquido escuro subia em bolhas.

Estourava.

Afundava.

Parecia vivo.

Mas nenhuma alma se via claramente.

Virgílio me advertiu que olhasse com cuidado. Havia condenados ali, mas estavam escondidos sob o piche. De vez em quando algum emergia, como golfinho que mostra o dorso no mar, e logo mergulhava outra vez para escapar dos guardas. Outros levantavam apenas o rosto, como rãs à beira da água, mas desapareciam assim que percebiam ameaça.

A pena era perfeita.

Aqueles eram os corruptos, os traficantes de cargos, os que fizeram comércio desonesto com funções públicas. Em vida, agiram escondidos sob negociações, favores, acordos, propinas, contratos obscuros, benefícios vendidos, decisões compradas. Agora estão mergulhados numa substância escura e viscosa, ocultos no piche que representa a própria opacidade da corrupção.

A corrupção raramente gosta de luz.

Ela vive em bastidores.

Em documentos manipulados.

Em salas fechadas.

Em favores trocados.

Em dinheiro que escorre por baixo da mesa.

Em promessas não registradas.

Em interesses disfarçados de serviço público.

Por isso os corruptos estão submersos.

Não aparecem como os violentos do Flegetonte, mergulhados em sangue visível. Aqui a matéria é negra. Esconde. Gruda. Queima. O piche é a imagem da administração moralmente contaminada: algo que cobre, cola, mancha e dificulta toda transparência.

Enquanto eu observava, um demônio apareceu.

Vinha correndo pela ponte, carregando uma alma nos ombros. Suas asas estavam abertas, sua figura era feroz, e ele trazia o condenado agarrado pelos tornozelos, pendurado como presa. Gritava para os outros demônios que ali vinha um dos anciãos de Santa Zita, isto é, um corrupto de Lucca. Mandou que o mergulhassem no piche, pois aquela cidade estava cheia deles.

O demônio lançou a alma para baixo.

O condenado afundou no piche fervente.

Mas logo tentou subir, arqueando o corpo.

Os demônios, porém, gritaram que ali não havia Santo Volto, nem se nadava como no Serchio. Era uma zombaria cruel com referências da própria Lucca. Depois o golpearam com ganchos, obrigando-o a mergulhar novamente. Diziam que, se queria roubar escondido, deveria fazê-lo debaixo do piche.

A ironia era brutal.

Em vida, ele agiu oculto.

Agora só pode permanecer oculto.

Em vida, emergia socialmente como autoridade, administrador, homem público.

Agora, quando emerge, é ferido.

Em vida, talvez fingisse honestidade.

Agora, qualquer aparição revela sua culpa.

Os demônios que guardavam aquela vala eram chamados Malebranche.

Más garras.

O nome era exato. Tinham ganchos, unhas, violência, malícia, sarcasmo. Não apenas puniam; zombavam. Sua função era impedir que os corruptos saíssem do piche. Eram guardas ferozes da ocultação transformada em castigo. Se alguma alma tentasse aliviar a dor erguendo-se, logo era fisgada e empurrada de volta.

Eu senti medo.

Diante de demônios anteriores, Virgílio havia respondido com autoridade. Mas aqui os Malebranche eram muitos, organizados e traiçoeiros. Sua própria natureza combinava com a fraude. Não eram apenas força bruta. Eram zombadores, enganadores, agressivos. Em Malebolge, até os guardas parecem mais astutos.

Virgílio percebeu o perigo.

Disse-me que eu deveria esconder-me atrás de uma rocha, enquanto ele iria falar com os demônios. Obedeci. Fiquei oculto, observando. Meu guia avançou sozinho pela ponte, e imediatamente os demônios correram contra ele, como cães que se lançam sobre um pobre quando ele para para pedir esmola.

Foi uma cena de tensão.

Os Malebranche vinham com ganchos erguidos.

Virgílio, porém, gritou que nenhum deles deveria agir antes de ouvi-lo. Pediu que um se aproximasse para escutar suas palavras. Então veio Malacoda, o chefe deles.

O nome significa má cauda.

Mais uma vez, a cauda aparece como sinal infernal: em Gerião, era o veneno escondido da fraude; aqui, no líder dos demônios, é marca de astúcia e malícia.

Virgílio disse a Malacoda que nossa viagem não acontecia sem vontade divina. Não teria chegado até ali, explicou ele, se não fosse ordenado pelo céu. E repetiu o princípio que tantas vezes sustentara nossa passagem: a vontade superior permite que eu atravesse o Inferno.

Ao ouvir isso, Malacoda deixou cair o gancho.

Disse aos outros que não ferissem Virgílio.

Mais uma vez, a autoridade do alto limitou a fúria infernal.

Virgílio então me chamou.

Saí de meu esconderijo, mas com cuidado. Quando apareci, os demônios se aproximaram de mim, fazendo-me temer que não cumprissem a ordem do chefe. Lembrei-me de soldados que, depois de tomar uma cidade, avançam sobre prisioneiros, e estes caminham trêmulos, sem saber se serão golpeados. Assim eu me sentia entre aquelas garras.

Os demônios me olhavam.

Um deles queria me tocar com o gancho.

Outro aconselhava que me fisgasse de leve.

Malacoda, porém, conteve-os.

Ele nos explicou que a ponte seguinte estava quebrada e que não poderíamos seguir por ela. Disse que, mais adiante, haveria outra ponte intacta pela qual poderíamos passar para a próxima vala. Para nos conduzir, ofereceu um grupo de dez demônios como escolta.

Aqui a situação ficou ambígua.

Malacoda parecia ajudar.

Mas ele era demônio.

Virgílio aceitou a escolta.

Eu, porém, fiquei desconfiado. Pedi a Virgílio que não aceitássemos companhia tão perigosa, se ele conhecia o caminho. Disse que os demônios rangiam os dentes, faziam sinais uns aos outros e pareciam prontos para nos trair. Minha alma percebia a ameaça. A fraude estava no ar. Malebolge não era lugar de confiança simples.

Virgílio me tranquilizou.

Disse que os demônios faziam aquilo contra os condenados do piche, não contra nós. Mas, mesmo ouvindo meu guia, eu ainda sentia o peso daquela companhia. Havia algo errado em caminhar escoltado por garras malignas. A autoridade divina os havia limitado, mas sua natureza continuava má.

Malacoda chamou os demônios pelo nome.

Alichino.

Calcabrina.

Cagnazzo.

Barbariccia.

Libicocco.

Draghignazzo.

Ciriatto.

Graffiacane.

Farfarello.

Rubicante.

Os nomes soavam grotescos, violentos, quase cômicos e ameaçadores ao mesmo tempo. Cada um parecia carregar uma deformidade particular. Eles eram uma tropa infernal, organizada, sarcástica, pronta para punir e enganar. Barbariccia foi colocado como líder da escolta.

Antes de partirmos, Malacoda deu um sinal obsceno com o corpo, e os demônios responderam de modo igualmente baixo. A cena era vulgar, quase chocante depois das discussões morais elevadas dos cantos anteriores. Mas isso também fazia parte da descida. A fraude pública, a corrupção administrativa, os demônios do piche: tudo ali é baixo, sujo, ridículo e perigoso.

Dante mostra que o mal nem sempre é grandioso.

Às vezes, é grotesco.

Às vezes, é burocrático.

Às vezes, é uma quadrilha rindo enquanto vigia um tanque de corrupção.

A quinta vala não tem a beleza trágica de Francesca, a majestade de Farinata, a nobre tristeza de Brunetto ou a dor refinada de Pier della Vigna. Tem piche, ganchos, demônios debochados e corruptos escondidos. É uma região de baixeza moral. A corrupção do serviço público não é heroica. É pegajosa, covarde, suja e ridícula.

No entanto, é extremamente grave.

Porque destrói a confiança na administração da justiça e da cidade. O corrupto vende decisões que deveriam servir ao bem comum. Ele transforma cargo em negócio, autoridade em mercadoria, lei em oportunidade, povo em presa. Não derrama sangue diretamente como o tirano, mas prepara ambientes onde a justiça apodrece. Ele faz o corpo político mergulhar em piche.

Por isso está em Malebolge.

Não é simples avareza.

É fraude institucional.

É dinheiro escondido dentro da função pública.

É o rosto de servidor com cauda de ladrão.

Começamos a caminhar com os demônios.

Eu seguia perto de Virgílio, ainda inquieto. O piche fervia abaixo. De vez em quando, algum condenado emergia e logo era ameaçado por ganchos. Os Malebranche marchavam conosco como escolta perigosa. A cada passo, eu sentia que a fraude não estava apenas nas almas punidas, mas também no próprio modo como aquele lugar funcionava.

A ponte quebrada, a informação de Malacoda, a escolta oferecida, os sinais entre os demônios — tudo parecia exigir vigilância. Em Malebolge, até a orientação pode ser armadilha. O viajante precisa discernir não só os pecados punidos, mas também as falas dos guardas. O engano está em toda parte.

O Canto XXI apresenta a quinta vala de Malebolge, onde os corruptos e traficantes de cargos públicos estão mergulhados em piche fervente. Eles são vigiados pelos demônios Malebranche, que os fisgam com ganchos quando tentam emergir. Virgílio negocia com Malacoda, que oferece uma escolta de demônios para conduzir os viajantes, embora a situação permaneça ameaçadora e ambígua.

Enquanto avançávamos, compreendi a lição daquela vala:

a corrupção é piche.

Ela não apenas queima.

Ela gruda.

Ela oculta.

Ela escurece.

Ela torna tudo viscoso.

Quem entra nela dificilmente sai limpo.

E quem vive dela acaba condenado a esconder-se eternamente no mesmo material moral em que aprendeu a trabalhar.