1) O ponto de partida: o que diferencia um texto procedural de um texto narrativo
Um texto narrativo tende a ter:
-
variação estilística e semântica livre,
-
personagens/sujeitos,
-
referências situacionais,
-
encadeamento “humano” (acontece, descreve, comenta),
-
redundância baixa (porque a narrativa não precisa repetir o mesmo comando 200 vezes).
Um texto procedural tende a ter:
-
repetição estruturada (o mesmo padrão com pequenas variações),
-
economia de forma (muita função, pouca ornamentação),
-
sequenciação rígida (antes/depois/até/repita),
-
parametrização (quantidade, tempo, intensidade),
-
estados (a mistura “está em X”, “saiu de X”, “entrou em Y”),
-
vocabulário reduzido porém combinável.
A minha tese nasce do seguinte: o Voynich, quando tratado como corpus, parece “respirar” mais como instrução do que como prosa. A estrutura interna faz mais sentido quando eu assumo que os tokens se comportam como unidades de função (comando/estado/modulador), e não como palavras soltas de uma língua natural.
2) Como um processo pré-moderno era “montado” na prática
Sem romantizar: laboratório pré-moderno (alquimia empírica, farmácia artesanal, destilações, macerações, fermentações, extrações) era basicamente engenharia de processo com ferramentas limitadas. O objetivo recorrente era obter resultados repetíveis com variáveis difíceis de medir.
2.1 Estrutura básica de um protocolo antigo (esqueleto universal)
Quase todo procedimento desse tipo pode ser descrito por um esqueleto:
-
Preparar insumos
selecionar, limpar, cortar, moer, dissolver, hidratar, secar. -
Escolher o recipiente e a montagem
vaso, banho-maria, alambique/condensação, tubos, tampas/selos, filtros. -
Aplicar energia
aquecer, manter, resfriar, alternar, usar calor indireto, controlar “brando/forte”. -
Controlar tempo e ciclos
“até”, “enquanto”, “repita”, “por X ciclos”, “no momento certo”. -
Induzir transição
decantar, precipitar, separar fases, concentrar, evaporar, fixar. -
Estabilizar e armazenar
selar, fixar, registrar o estado, conservar.
Essa estrutura é importante porque ela é procedural por natureza: ela se comporta como um programa que transforma estado inicial em estado final, passando por transições controladas.
3) Por que isso parece uma linguagem “executável” (analogia com programação)
Chamar de “linguagem de programação” é uma analogia funcional — não significa que o autor conhecia programação moderna; significa que o texto parece funcionar como um sistema de instruções com gramática rígida.
3.1 Mapeamento conceitual: protocolo ↔ programa
Um protocolo de laboratório pode ser descrito como:
-
Comandos: ações (misturar, aquecer, selar, filtrar)
-
Objetos: materiais e recipientes
-
Parâmetros: quantidades, intensidade, duração, ordem
-
Estados: “em estase”, “fixado”, “em transição”, “separado”
-
Conectores: sequência e condição (“depois”, “até”, “enquanto”, “se-então”)
-
Loops: repetir ciclos de aquecimento/resfriamento, maceração, agitação
-
Funções/módulos: blocos reutilizáveis com pequenas variações
-
Tratamento de exceção (prático): “se não ocorrer X, faça Y” (nem sempre explícito, mas comum em tradição de ofício)
O que eu observo no Voynich é que os tokens parecem se organizar de modo mais compatível com essa arquitetura do que com frases livres.
3.2 O “coração” da analogia: estados e transições
A tese depende fortemente de um ponto: estado.
Em protocolos, você não descreve só o que faz; você descreve o que a matéria se torna:
-
“ficou pronto”, “saturou”, “separou”, “fixou”, “entrou em repouso”, “mudou de fase”.
Isso é muito próximo de um autômato (máquina de estados):
-
Estado A → operação → Estado B → operação → Estado C.
A ideia de “diagramas de estado” nas imagens vem daqui: a iconografia pode estar ajudando a ancorar estados, materiais e módulos, enquanto o texto codifica operações e conectores.
4) O papel da iconografia dentro desse “sistema operacional”
A hipótese não se sustenta se as imagens forem tratadas como “tema” e o texto como “legenda”. O inverso funciona melhor: imagens como interface, texto como execução.
4.1 Plantas: âncoras de insumo/rota
Mesmo que não sejam botânicas reais, as plantas podem servir para:
-
agrupar “famílias de precursores” (matéria-prima),
-
marcar “rotas” (que tipo de transformação se aplica),
-
indicar “módulos” (um conjunto de passos associado àquele ícone).
4.2 Banhos, tubos e corpos: controle e cinética
Uma leitura funcional possível:
-
banho = controle térmico e meio de transferência,
-
tubos = fluxo, circulação, ligação entre estágios,
-
múltiplas figuras = estados/ciclos/variações de execução.
Não é “biologia” como fim — é diagrama de processo.
4.3 Astrológico/cronológico: temporização cultural
Em ambiente sem padronização universal de instrumentos, marcadores culturais (ciclos, calendários, constelações) podem funcionar como relógio operacional: “quando iniciar”, “quando colher”, “quando repetir”, “quando interromper”. Mesmo sem assumir literalidade, isso é uma forma de sincronização.
5) O que no texto “puxa” para essa leitura (sem exigir fé)
Esta seção não promete provar tudo de uma vez; ela define sinais observáveis que fazem um corpus parecer procedural.
5.1 Repetição com variação mínima
Protocolos repetem estrutura e variam parâmetros:
-
mesma forma-base + sufixo/prefixo muda o modo,
-
blocos semelhantes em locais distintos,
-
padrões de encadeamento que reaparecem.
Isso é diferente de narrativa, que varia mais “por estilo”.
5.2 Marcação de modo/aspecto/estado
Uma linguagem procedural eficiente costuma compactar:
-
modo (executar/aplicar),
-
aspecto (contínuo, iterativo),
-
estado (fixo, em estase, transitório).
Quando esses marcadores aparecem de maneira produtiva (repetíveis e combináveis), eles se comportam como “operadores” de instrução.
5.3 Conectores e governança local
Em procedimentos, conectores não são enfeite — são controle de fluxo:
-
sequência (A depois B),
-
condição (se X então Y),
-
limite (até acontecer Z),
-
simultaneidade (enquanto W).
Se o texto tem tokens que parecem desempenhar esse papel com estabilidade, isso reforça a leitura procedural.
6) Estrutura do “programa Voynich” na minha proposta
Aqui está o modelo mental mínimo que o leitor precisa ter para acompanhar o site. Eu assumo que uma linha (ou trecho curto) geralmente se comporta como:
-
Acionamento / entrada no modo operativo
-
Operação principal (OP)
-
Alvo/material (MAT)
-
Moduladores (MOD: intensidade, repetição, continuidade, dose)
-
Estados e transições (STA)
-
Conectores (CON) que encadeiam o próximo passo
Nem toda linha terá tudo; mas essa é a grade de leitura.
1) Starting point: what differentiates a procedural text from a narrative text
A narrative text tends to have:
-
free stylistic and semantic variation,
-
characters/subjects,
-
situational references,
-
“human” chaining (it happens, describes, comments),
-
low redundancy (because a narrative does not need to repeat the same command 200 times).
A procedural text tends to have:
-
structured repetition (the same pattern with small variations),
-
economy of form (high function, little ornamentation),
-
rigid sequencing (before/after/until/repeat),
-
parameterization (quantity, time, intensity),
-
states (the mixture “is in X,” “left X,” “entered Y”),
-
a reduced but combinable vocabulary.
My thesis arises from the following: the Voynich, when treated as a corpus, seems to “breathe” more like instruction than like prose. The internal structure makes more sense when I assume that tokens behave as units of function (command/state/modifier), rather than as isolated words of a natural language.
2) How a pre-modern process was “assembled” in practice
Without romanticizing it: the pre-modern laboratory (empirical alchemy, artisanal pharmacy, distillation, maceration, fermentation, extraction) was essentially process engineering with limited tools. The recurring goal was to obtain repeatable results with variables that were difficult to measure.
2.1 Basic structure of an old protocol (universal skeleton)
Almost every procedure of this kind can be described by a skeleton:
-
Prepare inputs
select, clean, cut, grind, dissolve, hydrate, dry. -
Choose the vessel and setup
vessel, water bath, alembic/condensation, tubes, caps/seals, filters. -
Apply energy
heat, maintain, cool, alternate, use indirect heat, control “gentle/strong.” -
Control time and cycles
“until,” “while,” “repeat,” “for X cycles,” “at the right moment.” -
Induce transition
decant, precipitate, separate phases, concentrate, evaporate, fix. -
Stabilize and store
seal, fix, record the state, preserve.
This structure matters because it is procedural by nature: it behaves like a program that transforms an initial state into a final state, passing through controlled transitions.
3) Why this looks like an “executable” language (programming analogy)
Calling it a “programming language” is a functional analogy—it does not mean the author knew modern programming; it means the text appears to function as a system of instructions with a rigid grammar.
3.1 Conceptual mapping: protocol ↔ program
A laboratory protocol can be described as:
-
Commands: actions (mix, heat, seal, filter)
-
Objects: materials and vessels
-
Parameters: quantities, intensity, duration, order
-
States: “in stasis,” “fixed,” “in transition,” “separated”
-
Connectors: sequence and condition (“after,” “until,” “while,” “if–then”)
-
Loops: repeat heating/cooling cycles, maceration, agitation
-
Functions/modules: reusable blocks with small variations
-
Exception handling (practical): “if X does not occur, do Y” (not always explicit, but common in craft traditions)
What I observe in the Voynich is that tokens appear to organize in a way more compatible with this architecture than with free-form sentences.
3.2 The “heart” of the analogy: states and transitions
The thesis depends heavily on one point: state.
In protocols, you do not only describe what you do; you describe what the material becomes:
-
“ready,” “saturated,” “separated,” “fixed,” “entered rest,” “changed phase.”
This is very close to an automaton (state machine):
-
State A → operation → State B → operation → State C.
The idea of “state diagrams” in the images comes from here: the iconography may be helping to anchor states, materials, and modules, while the text encodes operations and connectors.
4) The role of iconography within this “operating system”
The hypothesis does not hold if images are treated as “theme” and the text as “caption.” The reverse works better: images as interface, text as execution.
4.1 Plants: input/route anchors
Even if they are not real botany, plants can serve to:
-
group “families of precursors” (raw materials),
-
mark “routes” (what kind of transformation applies),
-
indicate “modules” (a set of steps associated with that icon).
4.2 Baths, tubes, and bodies: control and kinetics
One possible functional reading:
-
bath = thermal control and transfer medium,
-
tubes = flow, circulation, linkage between stages,
-
multiple figures = states/cycles/execution variants.
It is not “biology” as an end—it is a process diagram.
4.3 Astrological/chronological: cultural timing
In an environment without universal instrument standardization, cultural markers (cycles, calendars, constellations) can function as an operational clock: “when to start,” “when to harvest,” “when to repeat,” “when to stop.” Even without assuming literalism, this is a form of synchronization.
5) What in the text “pulls” toward this reading (without requiring faith)
This section does not promise to prove everything at once; it defines observable signals that make a corpus look procedural.
5.1 Repetition with minimal variation
Protocols repeat structure and vary parameters:
-
same base form + suffix/prefix changes the mode,
-
similar blocks in distinct locations,
-
recurring chaining patterns.
This differs from narrative, which varies more “by style.”
5.2 Mode/aspect/state marking
An efficient procedural language tends to compress:
-
mode (execute/apply),
-
aspect (continuous, iterative),
-
state (fixed, in stasis, transitional).
When these markers appear productively (repeatable and combinable), they behave like instruction “operators.”
5.3 Connectors and local governance
In procedures, connectors are not decoration—they are flow control:
-
sequence (A then B),
-
condition (if X then Y),
-
limit (until Z occurs),
-
simultaneity (while W).
If the text has tokens that appear to perform this role with stability, that reinforces the procedural reading.
6) Structure of the “Voynich program” in my proposal
Here is the minimal mental model the reader needs to follow the site. I assume that a line (or short segment) generally behaves as:
-
Activation / entry into operative mode
-
Main operation (OP)
-
Target/material (MAT)
-
Modifiers (MOD: intensity, repetition, continuity, dose)
-
States and transitions (STA)
-
Connectors (CON) that chain the next step
Not every line will contain everything; but this is the reading grid.

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