Deixamos para trás o círculo dos avarentos e dos pródigos.
Ainda ouvia, na memória, o choque dos pesos. Aqueles condenados continuavam empurrando suas cargas inúteis, colidindo uns contra os outros e repetindo acusações eternas: uns culpando os que guardaram demais, outros culpando os que gastaram demais. A riqueza, que em vida deveria ter servido ao bem, tornara-se massa bruta, esforço sem fruto, economia sem sabedoria.
Virgílio havia me explicado a Fortuna.
Eu ainda pensava nisso.
Os homens amaldiçoam a mudança dos bens porque querem permanência naquilo que Deus fez passageiro. Querem transformar a riqueza em fundamento, mas ela se move. Querem possuir como se fossem eternos, mas são mortais. Querem controlar aquilo que escapa. E, por isso, quando a Fortuna cumpre sua função, chamam de injustiça aquilo que apenas desmascara sua idolatria.
Mas a descida não parou.
O ar mudou novamente.
Aos poucos, os sons de choque e acusação foram sendo substituídos por outro ruído: um borbulhar pesado, uma agitação de água suja, um som de corpos lutando na lama. Diante de nós, começou a aparecer uma região escura, alagada, densa, como se a própria tristeza tivesse se tornado pântano.
Chegamos ao Estige.
Não era um rio límpido. Não era água que corre para dar vida. Era uma massa escura, lodosa, pesada, parada e ao mesmo tempo perturbada por movimentos violentos. A superfície parecia respirar raiva. Bolhas se levantavam. Ondas pequenas se quebravam contra a lama. O ar era úmido, sombrio e opressor.
Olhei com atenção.
Na superfície do pântano, vi almas nuas e furiosas.
Elas batiam umas nas outras.
Não apenas com as mãos, mas com a cabeça, com o peito, com os pés, com os dentes. Arrancavam pedaços, golpeavam-se, mordiam-se. A raiva que as havia dominado em vida agora se tornara gesto eterno. Não havia diálogo. Não havia reconciliação. Não havia sequer verdadeiro combate com finalidade. Havia apenas agressão repetida, brutal, circular.
Virgílio me explicou:
ali estavam os iracundos.
Aqueles que se deixaram governar pela ira.
A ira, em vida, parece força. Parece energia. Parece justiça ardendo. Muitas vezes o homem irado se sente mais vivo, mais verdadeiro, mais potente. A raiva dá a sensação de clareza: “eu sei quem é meu inimigo”, “eu sei quem deve ser destruído”, “eu sei quem me ofendeu”. Mas, quando a ira perde a ordem da razão e da justiça, ela deixa de ser zelo e se transforma em autodestruição.
Ali isso estava manifesto.
Os iracundos não venciam ninguém.
Não construíam nada.
Não corrigiam injustiça alguma.
Apenas se feriam eternamente.
O pântano era o mundo interior deles tornado paisagem. Em vida, a ira os fez viver em choque, conflito, reação, agressão. Agora, sua eternidade era essa: bater e ser batido, morder e ser mordido, odiar e receber ódio. A pena não vinha como algo estranho ao pecado; era a forma final do próprio pecado.
Continuei olhando.
Mas Virgílio me chamou a atenção para algo mais profundo.
Sob a lama havia outras almas.
Eu não as via claramente de início. Só percebia bolhas subindo à superfície, como se vozes sufocadas tentassem falar. Depois ouvi palavras quebradas, vindas de baixo da água lodosa. Elas diziam, com dificuldade, que haviam sido tristes no ar doce que se alegra com o sol, carregando dentro de si uma fumaça amarga; agora estavam tristes na lama negra.
Essas almas eram os afundados.
Os melancólicos.
Os que guardaram a ira por dentro.
Aqui a visão se tornou ainda mais complexa.
Na superfície estavam os iracundos ativos: os que explodiram em violência, agressão, briga, destruição. Sob a lama estavam os tristes, os sombrios, os ressentidos, aqueles que não necessariamente golpearam externamente, mas deixaram a alma afundar em amargura, rancor, fechamento, acídia, recusa da alegria. Se os primeiros são a ira que explode, estes são a ira que apodrece.
Ambos pertencem ao mesmo pântano.
Isso me ensinou que nem toda ira aparece gritando.
Há uma ira barulhenta e há uma ira silenciosa.
Há quem destrua com as mãos, e há quem destrua por dentro.
Há quem ataque o outro, e há quem transforme a própria alma em lama.
Os submersos não brigavam visivelmente como os da superfície, mas sua pena era terrível: estavam impedidos de falar claramente. Suas palavras se perdiam em bolhas. A tristeza que cultivaram dentro de si agora sufocava sua voz. Em vida, talvez tenham recusado a luz, a gratidão, a abertura ao bem. Agora estão mergulhados numa escuridão úmida, incapazes de respirar o ar claro que desprezaram.
A imagem é severa.
A alma humana foi feita para respirar luz.
Mas a amargura cria um clima interno.
Quem cultiva tristeza ressentida, quem transforma mágoa em identidade, quem rejeita toda alegria como se ela fosse ofensa, acaba afundando numa região onde a palavra se decompõe. A voz já não louva, não confessa, não dialoga. Apenas borbulha.
Eu olhei para o Estige com horror.
Esse círculo parecia menos nobre que os anteriores. A luxúria ainda tinha linguagem amorosa; a gula ainda podia ser confundida com prazer; a avareza podia vestir-se de prudência econômica; a prodigalidade podia fingir generosidade. Mas ali a deformação era mais visível: ira, lama, luta, sufocamento.
Ainda assim, precisei reconhecer algo.
A ira também sabe justificar-se.
No mundo dos vivos, quase ninguém se considera simplesmente irado. Cada um acha que sua raiva é justa, que sua agressão é resposta proporcional, que seu ressentimento é lucidez, que sua amargura é apenas memória das feridas. E, de fato, há indignações legítimas. Há injustiças que devem ser enfrentadas. Há males que não podem ser tratados com indiferença.
Mas o Estige mostra quando a ira deixa de servir à justiça e passa a possuir a pessoa.
A ira justa ainda ama o bem.
A ira infernal ama a destruição.
A ira justa quer corrigir.
A ira infernal quer ferir.
A ira justa mantém a razão acordada.
A ira infernal transforma o outro em alvo e o próprio coração em pântano.
Foi isso que vi ali.
Os iracundos da superfície já não sabiam por que lutavam. Não havia causa. Só havia movimento de ódio. Os submersos já não sabiam falar. Não havia expressão plena. Só havia bolhas de uma tristeza fechada em si mesma.
Virgílio e eu seguimos pela margem daquele pântano.
O caminho era sombrio. O solo parecia ceder sob os pés. A água escura refletia quase nada, como se recusasse toda imagem clara. Ao longe, comecei a perceber sinais de uma cidade infernal que ainda não compreendia. Mas, antes dela, o Estige precisava ser atravessado.
Enquanto caminhávamos, senti o peso espiritual daquela paisagem.
No círculo dos avarentos e pródigos, os bens eram o problema: guardar e gastar sem ordem. Aqui, o problema era a reação da alma diante do mal, da frustração, da ofensa, da dor. A ira nasce frequentemente quando a vontade encontra resistência. Quando algo ou alguém impede meu desejo, ameaça minha honra, fere minha imagem, frustra meu controle. Então a alma se levanta para destruir.
Ou se fecha e afunda.
Por isso, o Estige vem depois dos círculos dos apetites e dos bens. A alma que deseja desordenadamente, consome desordenadamente e possui desordenadamente inevitavelmente colide com o mundo. E, ao colidir, pode tornar-se irada. A ira é muitas vezes o fogo que nasce quando o desejo contrariado não aceita limite.
Mas no Inferno esse fogo aparece como lama.
Isso é importante.
A ira parece quente, mas termina fria e lodosa.
Parece força, mas termina rebaixamento.
Parece movimento, mas termina repetição.
Parece voz poderosa, mas termina grito confuso ou bolha sufocada.
Essa inversão revela a mentira da paixão.
Virgílio não me deixou ficar parado.
Seguimos até chegar a uma torre. No alto dela, duas chamas apareceram como sinais. De longe, outra chama respondeu. Havia comunicação dentro daquele reino escuro. O Inferno tinha sua organização, seus avisos, seus guardas, suas passagens. A cidade inferior não era caos: era uma ordem deformada, uma política da perdição.
Logo vi aproximar-se uma embarcação.
Ela vinha sobre o pântano, conduzida por um barqueiro. Não era Caronte, o barqueiro do Aqueronte. Este era outro: Flégias, figura ligada à ira e à violência. Ele vinha gritando, como se acreditasse ter finalmente nos alcançado.
Mas Virgílio respondeu que ele nos teria apenas enquanto atravessássemos o lodo.
Entramos na barca.
Quando meu corpo vivo entrou, a embarcação pareceu afundar mais do que fazia com as almas mortas. Esse detalhe me lembrou novamente que eu não era uma sombra. Eu atravessava aquele mundo com corpo, peso, medo, memória e destino ainda aberto. O Inferno reagia à minha presença viva.
Flégias nos conduziu pelo Estige.
A água escura se abria diante da barca.
As almas iradas continuavam lutando ao redor. As submersas continuavam borbulhando sob nós. Eu sentia que atravessávamos não apenas um pântano, mas uma região da alma humana onde a dor não foi entregue à cura e se transformou em violência ou amargura.
Enquanto cruzávamos, uma sombra coberta de lama se ergueu diante de mim.
Ela perguntou quem eu era, que vinha antes da hora.
Eu respondi que, se vinha, não ficaria; mas perguntei quem era ele, tão sujo.
Ele respondeu apenas que era um que chorava.
Mas eu o reconheci.
Era Filippo Argenti.
Florentino.
Orgulhoso, colérico, violento.
Sua presença fez a cidade de Florença retornar ao Inferno diante de mim. Assim como Ciacco ligara a gula à corrupção política florentina, Filippo Argenti ligava a ira à vida social da cidade. O Inferno de Dante não é distante de sua história. As paixões condenadas tinham rosto conhecido, rosto urbano, rosto político.
Ao vê-lo, senti repulsa.
Diferente da compaixão que tive por Francesca, diante de Filippo não fui tomado por ternura. Desejei vê-lo mergulhado na lama. Virgílio aprovou minha reação, abraçando-me e chamando bendita aquela que me gerou. Isso pode parecer duro, mas há aqui uma diferença moral: Francesca falava com beleza e despertava perigo de compaixão desordenada; Filippo aparece como figura de arrogância iracunda, sem nobreza, sem arrependimento, sem doçura enganosa. A repulsa de Dante começa a alinhar-se com o juízo.
As outras almas se lançaram sobre Filippo.
Ele foi despedaçado pela fúria dos que estavam ali. Até ele mesmo, em raiva, voltava-se contra si com os dentes. A cena era brutal. O homem irado, no fim, torna-se alimento da ira comum. Quem viveu pela agressão entra numa comunidade de agressão. Quem fez do conflito sua força é absorvido por um mundo onde todos se devoram.
Virgílio então me disse que, antes de alcançarmos a margem, eu veria algo que me daria satisfação. E assim foi: vi Filippo ser atacado e afundado pelos seus iguais.
Essa passagem é incômoda, mas necessária.
Dante está aprendendo a ordenar sua compaixão. No Inferno, sentir pena de todo condenado como se a pena fosse injusta seria falhar no entendimento. Mas também se alegrar cruelmente com a dor por prazer sádico seria outra deformação. O ponto é mais sutil: Dante começa a reconhecer que certas almas representam vícios tão destrutivos que sua humilhação diante da justiça é correta.
A ira orgulhosa deve ser julgada.
A violência arrogante deve ser rebaixada.
A cidade não se cura tratando a brutalidade como se fosse apenas temperamento forte.
Depois disso, seguimos.
Ao longe, a cidade de Dite começou a aparecer.
Suas mesquitas ou torres ardiam como ferro saído do fogo. As muralhas pareciam incandescentes. A paisagem tornava-se mais ameaçadora. Eu sentia que estávamos nos aproximando de uma nova divisão do Inferno. Até então, havíamos atravessado pecados de incontinência: desejos e paixões que falharam por falta de governo. Mas a cidade de Dite indicava algo mais grave: uma região de malícia mais consciente, mais endurecida, mais rebelde.
O Estige, portanto, é passagem.
Ele fecha uma etapa e prepara outra.
A ira nos leva até os muros de uma cidade infernal. Isso faz sentido: paixões desordenadas, quando se organizam, tornam-se estrutura. O ódio deixa de ser apenas explosão individual e vira cidade, sistema, política, resistência contra o caminho da salvação.
Dite se ergue à frente.
E eu, olhando para aquelas torres vermelhas, percebi que a jornada ficaria mais difícil.
No Canto VII, depois de explicar a Fortuna e passar pelo círculo dos avarentos e pródigos, Dante e Virgílio chegam ao Estige. Ali veem os iracundos lutando na superfície da lama e os tristes ou rancorosos afundados sob a água escura. Em seguida, aproximam-se da travessia que levará à cidade de Dite.
Continuei em silêncio.
A barca seguia.
O pântano ficava atrás, mas seus sinais permaneciam em mim.
Eu havia aprendido que a ira pode gritar ou sufocar.
Pode bater no outro ou afundar dentro de si.
Pode parecer força ou parecer tristeza.
Mas, quando não é ordenada pelo bem, sempre termina em lama.
E agora, diante das muralhas ardentes de Dite, eu compreendia que o Inferno estava prestes a mostrar formas ainda mais profundas da perdição: não apenas paixões que arrastam, mas vontades que se organizam contra a luz.
