Descemos para o quarto círculo.

A chuva fria dos gulosos ficou para trás. A lama, o granizo, os corpos prostrados no chão e os latidos de Cérbero ainda pesavam na minha memória. Eu havia visto como o apetite, quando governa a alma, rebaixa o homem à matéria degradada. Também havia ouvido, pela boca de Ciacco, que a desordem individual pode tornar-se doença política, inflamando cidades inteiras por soberba, inveja e avareza.

Mas agora outro tipo de desordem se aproximava.

Não era mais a gula do corpo.

Era a doença do uso dos bens.

Assim que entramos, uma voz monstruosa rompeu a escuridão.

“Pape Satàn, pape Satàn aleppe!”

Não compreendi aquelas palavras. Elas soavam como ruído infernal, uma língua quebrada, carregada de ameaça. A voz vinha de Plutão, guardião daquele círculo, figura associada às riquezas e ao poder sombrio do dinheiro. Sua presença parecia anunciar o tema daquele lugar: a alma escravizada pelos bens materiais.

Ao ouvi-lo, estremeci.

Virgílio percebeu meu medo e me tranquilizou. Disse que aquela fúria não impediria nossa descida. Depois voltou-se contra Plutão e o repreendeu, lembrando-lhe que nossa passagem era determinada por vontade superior. Como já fizera com Caronte e Minós, meu guia não negociou com a potência infernal. Apenas afirmou a autoridade que vinha do alto.

Plutão, então, caiu.

Desmoronou como vela inchada pelo vento que, de repente, perde força quando o mastro se quebra. A imagem era clara: a ameaça infernal parecia grande, mas não sustentava resistência diante da ordem divina. O poder ligado à riqueza, à posse e à avidez fazia barulho, mas não tinha última autoridade.

Seguimos.

Então vi as almas daquele círculo.

Elas estavam divididas em dois grupos. Cada grupo empurrava grandes pesos com o peito, avançando em direções opostas. Quando se encontravam, chocavam-se violentamente e gritavam umas contra as outras:

“Por que guardas?”

“Por que desperdiças?”

Depois, voltavam pelo caminho contrário, repetindo eternamente o mesmo movimento, até se encontrarem de novo, baterem-se de novo e acusarem-se de novo.

A cena era absurda e terrível.

Não havia progresso.

Não havia construção.

Não havia finalidade.

Havia apenas esforço bruto, colisão e retorno.

Essas almas haviam usado mal os bens em vida. De um lado estavam os avarentos, que acumularam, prenderam, retiveram, fizeram da posse uma prisão. De outro, os pródigos, que desperdiçaram, dissiparam, consumiram sem medida, trataram os bens como se não houvesse responsabilidade. Pareciam opostos, mas estavam no mesmo círculo, porque ambos tinham perdido a justa relação com aquilo que passa pelas mãos humanas.

Um guarda demais.

Outro gasta demais.

Mas os dois estão presos ao mesmo eixo: a desordem diante dos bens.

Essa visão me ensinou que o pecado não está apenas no excesso de posse, mas também no excesso de dissipação. A virtude não é simplesmente ter pouco ou gastar muito; é usar bem. O bem material não é mau em si. Ele pode servir à vida, à casa, à cidade, ao cuidado, à generosidade e à justiça. Mas, quando deixa de ser instrumento e passa a governar a alma, torna-se peso.

Por isso a pena era perfeita.

Eles empurravam pesos.

Em vida, os bens deveriam ter sido administrados com sabedoria. Agora, tornaram-se massas inúteis, empurradas sem propósito. Aquilo que devia circular segundo justiça e caridade virou carga. Aquilo que devia servir à vida virou tormento. A riqueza, mal usada, converteu-se em pedra.

E eles a empurravam com o peito.

Não com as mãos apenas.

Com o peito.

Como se o centro afetivo da pessoa, o lugar simbólico do desejo e da vontade, estivesse esmagado contra a matéria que amou de forma errada. O avarento colou o coração ao que guardava. O pródigo colou o coração ao ato de gastar. Ambos perderam liberdade. Agora, o próprio peito é instrumento da pena.

Perguntei a Virgílio quem eram aquelas almas.

Eu via muitas cabeças raspadas, tonsuras, sinais de pessoas que em vida pertenceram ao clero. Meu guia respondeu que muitos ali foram papas, cardeais e clérigos, nos quais a avareza exerceu domínio. Isso me feriu profundamente.

A religião não os havia protegido da desordem do dinheiro.

Pelo contrário, talvez a tivesse tornado mais grave.

Quando alguém que deveria servir ao sagrado passa a servir à posse, a corrupção se torna mais escandalosa. O bem espiritual é usado para acumular bens terrenos. O altar se contamina pelo cálculo. A autoridade religiosa se curva ao interesse. O círculo dos avarentos, portanto, não julga apenas comerciantes, ricos ou administradores civis; julga também homens religiosos que transformaram o ministério em instrumento de ganho.

Essa imagem é duríssima.

Dante coloca no Inferno não só vícios privados, mas também a crítica das instituições. A avareza e a prodigalidade deformam indivíduos, mas a avareza clerical deforma a mediação do sagrado. Quando o guardião do espiritual se torna escravo do material, a alma do povo também é ferida.

Olhei para aquelas almas e tentei reconhecer alguém.

Mas não consegui.

Virgílio explicou que a vida sem discernimento diante dos bens os havia tornado irreconhecíveis. Em vida, talvez fossem famosos, poderosos, cercados de títulos e honras. Ali, perderam rosto. A avareza e a prodigalidade apagam a singularidade da pessoa. Quem vive apenas para reter ou dissipar bens acaba reduzido à função de seu vício.

Não há verdadeira identidade onde o dinheiro se torna senhor.

Continuei vendo os grupos colidirem.

A frase de acusação se repetia:

“Por que guardas?”

“Por que desperdiças?”

Era uma condenação mútua eterna. Cada grupo enxergava o erro do outro, mas não a raiz comum do próprio erro. O avarento despreza o pródigo por desperdiçar. O pródigo despreza o avarento por reter. Mas ambos estão presos no mesmo círculo, porque ambos falharam na medida.

Isso é muito humano.

Muitas vezes, uma deformação moral se consola apontando a deformação oposta. O avarento sente-se virtuoso porque não desperdiça. O pródigo sente-se generoso porque não acumula. Mas Dante mostra que a virtude não é o contrário mecânico do vício; é a ordem correta. Dois extremos opostos podem ser igualmente desordenados.

A justa relação com os bens exige mais que reação.

Exige sabedoria.

Exige finalidade.

Exige reconhecer que o dinheiro, a propriedade, os recursos e as posses devem servir ao bem, não dominar o coração.

Virgílio então começou a falar sobre a Fortuna.

A palavra me chamou atenção. No mundo, muitos reclamam da Fortuna. Dizem que ela tira bens, muda posições, eleva uns, derruba outros, distribui riquezas de modo incompreensível. Muitos a acusam como se fosse força cega e injusta. Mas Virgílio apresentou outra visão.

A Fortuna, explicou ele, é ministra de Deus.

Ela governa a distribuição dos bens terrenos entre povos, famílias e indivíduos, movendo riquezas de uma mão a outra, de uma nação a outra, de uma época a outra. Ela faz girar os bens temporais para que nenhum grupo humano os possua como se fossem eternos. Sua mudança constante humilha a ilusão de domínio.

Essa explicação era importante.

Os homens chamam Fortuna de injusta porque querem estabilidade absoluta nos bens passageiros. Querem possuir como se nada fosse mudar. Querem agarrar o que, por natureza, circula e passa. Então, quando a Fortuna muda as condições, reclamam dela, amaldiçoam-na e a acusam. Mas ela apenas cumpre sua função dentro da ordem providencial.

A riqueza não é fundamento eterno.

Ela passa.

Muda.

Escapa.

Circula.

A Fortuna, nesse sentido, desmascara a idolatria da posse. Quem confia no dinheiro será atormentado pela mudança. Quem faz da posição social sua segurança será destruído pela instabilidade. Quem entende os bens como instrumentos pode usá-los enquanto os tem e perdê-los sem perder a alma.

Virgílio falou que a Fortuna é feliz em sua função, mesmo sendo difamada pelos homens. Eles a amaldiçoam, mas ela segue seu curso, como inteligência celeste ordenada por Deus. Isso muda completamente a leitura do mundo. O acaso aparente não é puro caos; está dentro de uma ordem maior que a compreensão humana raramente alcança.

Enquanto ele falava, olhei novamente para as almas dos avarentos e pródigos.

Elas haviam falhado exatamente nisso.

Não entenderam a natureza passageira dos bens. Os avarentos quiseram fixar a riqueza nas mãos. Os pródigos a trataram como material de dissipação sem sentido. Nenhum dos dois percebeu que os bens exigem administração justa, não culto. A Fortuna move aquilo que eles tentaram absolutizar.

Por isso agora empurravam pesos inúteis.

Seu castigo era a paródia da economia sem sabedoria: movimento, esforço, choque, acusação, repetição, mas nenhum bem real produzido.

Pensei então nas cidades.

Pensei em Florença.

Pensei nas facções, nas famílias, nas disputas, nas heranças, nos cargos, nas alianças, nos clérigos, nos mercadores, nos nobres, nos pobres usados como massa de manobra. A avareza não vive apenas dentro do indivíduo; ela organiza sociedades inteiras. Ela define quem come, quem manda, quem serve, quem é descartado, quem é lembrado, quem é esquecido.

No círculo anterior, Ciacco havia apontado soberba, inveja e avareza como faíscas da crise florentina. Agora eu via a avareza em sua pena própria. Ela não era detalhe moral. Era força estruturante de ruína. Quando bens deixam de servir à justiça, tornam-se pesos que comunidades inteiras empurram umas contra as outras.

De um lado, os que acumulam.

Do outro, os que dissipam.

No centro, a colisão social.

E tudo recomeça.

A cena parecia infernal, mas também muito histórica.

A economia desordenada é circular: produz esforço sem restauração, riqueza sem paz, gasto sem alegria, poupança sem generosidade, conflito sem solução. O Inferno apenas torna eterno aquilo que já estava acontecendo no tempo.

Virgílio concluiu sua explicação e seguimos adiante.

Aquele círculo me deixou uma impressão pesada. No Limbo, eu havia visto grandeza sem plenitude. No círculo dos luxuriosos, paixão sem governo. No dos gulosos, apetite reduzido à lama. Agora, nos avarentos e pródigos, via a relação com os bens transformada em carga eterna.

A ordem dos círculos fazia sentido.

Primeiro, os desejos do corpo e da paixão.

Depois, o apetite de consumo.

Agora, a posse e o uso dos bens.

A alma vai sendo julgada em suas relações fundamentais: com o amor, com o corpo, com a comida, com o dinheiro, com o mundo material. Dante mostra que a perdição não é abstrata. Ela entra nas formas concretas da vida.

Como amamos.

Como comemos.

Como possuímos.

Como gastamos.

Como guardamos.

Como nos relacionamos com o que passa.

E tudo isso revela se a alma está ordenada ou não ao bem.

O Canto VII apresenta a entrada no quarto círculo, guardado por Plutão, onde avarentos e pródigos empurram pesos em direções opostas, acusando-se mutuamente. Virgílio também explica a função da Fortuna como ministra da providência, responsável por mover os bens temporais entre os homens e os povos.

Depois, descemos em direção a uma nova região.

O som dos pesos ficou para trás, mas logo outro ambiente começou a aparecer: águas escuras, lodosas, pesadas. Estávamos nos aproximando do Estige, onde outro tipo de desordem seria revelado: a ira, a melancolia sombria e os que se afundaram no lodo da própria amargura.

Mas antes de chegar ali, eu ainda carregava a lição do quarto círculo:

quem transforma bens em deuses acaba condenado a carregá-los como pedras.

Quem não sabe guardar com justiça nem gastar com sabedoria perde a liberdade.

E quem amaldiçoa a Fortuna talvez esteja apenas confessando que esperava eternidade daquilo que Deus fez passageiro.