A mentira de Malacoda havia sido descoberta.
O demônio chefe dos Malebranche nos dissera que encontraríamos uma ponte intacta mais adiante. Mas, ao chegar à sexta vala, soubemos pelos hipócritas que aquilo era falso. As pontes daquela região haviam sido quebradas desde o grande tremor causado pela morte de Cristo, e nenhuma delas permanecia inteira como Malacoda afirmara.
Virgílio havia sido enganado.
Isso me perturbou.
Até aquele momento, meu guia fora para mim sinal de razão firme, palavra segura, direção. Ele enfrentara Caronte, Minós, Plutão, Flégias e muitos outros. Mas em Malebolge, terra da fraude, até Virgílio precisou aprender pelo caminho. A mentira de Malacoda mostrou que a razão, mesmo elevada, precisa de vigilância quando atravessa o território do engano.
Ainda assim, Virgílio não se deixou vencer.
Ele ficou por um instante abatido, como alguém que percebe a armadilha. Mas logo retomou a firmeza. Era necessário subir pelos escombros da ponte quebrada. Não haveria passagem fácil. Não haveria escolta confiável. Teríamos de escalar.
Olhei para cima.
As pedras eram ásperas, inclinadas, difíceis. A subida parecia quase impossível para mim, ainda vivo, com corpo pesado e forças limitadas. Depois de tantas visões, tantos medos, tantas descidas, agora eu precisava subir dentro do próprio Inferno. Isso era estranho: a jornada rumo ao fundo exigia, em certos momentos, esforço ascendente.
Virgílio começou a escalar.
Eu o segui.
Mas logo senti o cansaço.
Minhas mãos procuravam apoio nas pedras quebradas. Meus pés escorregavam. O corpo doía. A respiração se tornava curta. Eu não era sombra. Não podia mover-me com leveza entre rochas. Cada avanço exigia força. E, quanto mais subíamos, mais percebia que minha coragem não bastava sem perseverança.
Em certo momento, quase parei.
O desânimo veio sobre mim como peso.
Virgílio percebeu.
Então me falou com severidade e esperança. Disse que não se conquista fama deitado em plumas ou coberto por cobertores. Aquele que consome a vida sem esforço deixa na terra o mesmo vestígio que fumaça no ar ou espuma na água. Era preciso levantar-se, vencer a fadiga, dominar o corpo com o ânimo que vence batalhas, se não afundar com ele.
Suas palavras me queimaram por dentro.
Eu compreendi que a travessia do Inferno não era apenas contemplação do pecado alheio. Era também formação da minha vontade. Ver o mal não bastava. Era preciso aprender a resistir ao cansaço, à covardia, à moleza, à desistência. A alma que deseja sair da selva deve aceitar esforço. A graça conduz, mas não transforma o peregrino em pedra carregada sem participação.
Levantei-me interiormente.
Disse a Virgílio que fosse adiante, pois eu estava forte e ousado.
Talvez minha força ainda fosse pequena, mas a resposta era necessária. Às vezes, a coragem nasce ao ser chamada. Virgílio não me deu conforto vazio; deu-me direção. E minha vontade, sacudida por sua palavra, voltou a mover-se.
Continuamos a subir.
A escalada era difícil, mas enfim alcançamos a ponte seguinte, de onde podíamos olhar para a sétima vala.
Ali vi uma cena terrível.
A vala estava cheia de serpentes.
Serpentes de todos os tipos.
Enroscavam-se, rastejavam, saltavam, mordiam, prendiam as almas. Algumas tinham formas conhecidas; outras pareciam monstros impossíveis. A multiplicidade delas causava horror. Nunca imaginei que a Líbia, com todas as suas serpentes famosas, pudesse ter tantas como aquela vala.
As almas condenadas corriam nuas entre elas.
Não havia abrigo.
Não havia mãos livres.
As serpentes lhes amarravam os braços atrás das costas, atravessavam seus rins, mordiam suas carnes, envolviam seus corpos. Os condenados eram perseguidos por aquilo que rasteja, por aquilo que se esconde, por aquilo que ataca de súbito.
Virgílio me explicou que ali estavam os ladrões.
A sétima vala de Malebolge.
De início, talvez eu esperasse que ladrões fossem punidos apenas perdendo objetos, sofrendo pobreza ou sendo perseguidos por guardas. Mas a pena era mais profunda. O roubo é uma fraude contra a propriedade, contra a confiança e contra a identidade do outro. O ladrão viola limites. Toma o que não lhe pertence. Usa astúcia, ocultamento, rapidez, oportunidade. Age como serpente: escondido, sinuoso, repentino.
Por isso, serpentes.
O ladrão se torna companheiro daquilo que se move sem retidão.
Mas a pena ia além da perseguição.
Vi uma serpente lançar-se contra uma alma e mordê-la no pescoço. No mesmo instante, o condenado incendiou-se, queimou, virou cinzas e caiu ao chão. Porém, logo as cinzas se juntaram novamente, e a alma retornou à forma anterior, como fênix que renasce depois de queimada.
A cena me deixou atônito.
A alma morria e renascia na própria pena.
Desfazia-se e recompunha-se.
Perdia a forma e a recuperava.
Isso revelava algo sobre o roubo: o ladrão ataca a estabilidade da posse e da identidade; agora sua própria forma é instável. Ele não consegue permanecer inteiro. É tomado, desfeito, recomposto, como se a própria pessoa fosse objeto roubado de si mesma.
Aquele condenado era Vanni Fucci.
Um homem de Pistoia.
Depois de recompor-se das cinzas, ele falou conosco. Estava envergonhado por ser visto naquela miséria. Disse que fora besta, não homem, e que sua vida fora marcada por violência e furto. Confessou que roubara objetos sagrados da sacristia de São Tiago em Pistoia, crime pelo qual outro havia sido injustamente acusado.
Essa confissão trouxe uma gravidade maior.
Não era apenas roubo comum.
Era furto sacrílego.
Ele havia roubado de uma igreja, profanando o espaço sagrado e ainda permitindo que outro carregasse a culpa. O roubo, aqui, se une à injustiça e à mentira. Tomou bens, feriu o sagrado e deformou a justiça humana.
Vanni Fucci, porém, não falava com arrependimento verdadeiro.
Ao perceber que eu era florentino, reagiu com malícia. Não quis apenas explicar sua condição. Quis ferir-me com uma profecia contra Florença. Anunciou conflitos futuros entre Pistoia e Florença, entre partidos, entre brancos e negros, e falou de acontecimentos que trariam dor aos meus. Fez isso, disse ele, para que eu sofresse.
Essa atitude revelou sua alma.
Mesmo punido, Vanni Fucci ainda queria causar dor.
Diferente de Pier della Vigna, que queria restaurar sua fama; diferente de Brunetto, que me falou com afeto de mestre; diferente dos florentinos ilustres que perguntaram pela cidade com dor cívica, Vanni Fucci fala para machucar. Sua profecia não vem como advertência nobre, mas como veneno.
Ele é ladrão e serpentino também na palavra.
Rouba paz.
Rouba esperança.
Rouba serenidade.
Usa o futuro como arma.
Isso me lembrou a quarta vala dos adivinhos. Lá, o futuro era buscado ilicitamente. Aqui, o futuro conhecido ou anunciado é usado para ferir. Em Malebolge, até a profecia pode virar instrumento de malícia quando passa pela boca de uma alma corrompida.
Vanni Fucci parecia orgulhar-se de sua vileza.
Sua vergonha não era arrependimento; era irritação por ter sido visto. Ele não sofria por ter roubado, mas por ser exposto. Isso é típico da fraude: odeia a luz mais do que odeia a culpa. O corrupto quer ficar no piche. O hipócrita quer manter o ouro exterior. O ladrão quer esconder a mão. Quando é visto, revolta-se.
A vala dos ladrões, então, me mostrou uma nova dimensão da fraude.
O roubo não é apenas transferência ilícita de bens.
É destruição da confiança na fronteira entre meu e teu.
A vida comum depende de limites: casa, corpo, trabalho, memória, propriedade, honra, objeto confiado, bem sagrado. O ladrão atravessa esses limites sem permissão. Faz do mundo uma extensão de sua cobiça. E, ao fazer isso, torna a convivência insegura. Cada coisa passa a poder ser tomada. Cada ausência vira ameaça. Cada proximidade pode esconder mão furtiva.
Por isso, no Inferno, os ladrões perdem o domínio até sobre si mesmos.
As serpentes os amarram.
Mordem.
Queimam.
Transformam.
Desfazem.
O corpo, que deveria ser posse própria da alma, torna-se instável. O ladrão, que tomou formas alheias de segurança, agora não tem segurança de sua própria forma.
A imagem da fênix também é irônica.
No mundo mítico, a fênix renasce gloriosamente.
Aqui, a renovação não é salvação.
É repetição da pena.
Renascer das cinzas, para Vanni Fucci, não é esperança. É retorno ao sofrimento. O Inferno imita símbolos de vida, mas sem redenção. Há recomposição, mas não restauração. Há continuidade, mas não cura.
Virgílio permaneceu atento.
Eu, porém, fui tomado por repulsa. Vanni Fucci não tinha a tragédia de outras almas. Nele havia vileza aberta. Chamou-se besta, e de fato sua postura parecia ter descido abaixo da dignidade humana. Sua profecia maldosa contra Florença e contra mim revelava que sua boca ainda carregava veneno.
A sétima vala era, portanto, uma região de metamorfose moral.
Os ladrões, que violaram a forma estável das relações, sofrem instabilidade de forma.
Os que se moveram como serpentes são entregues a serpentes.
Os que tomaram o alheio perdem a posse de si.
Os que agiram ocultamente são expostos nus.
Os que fizeram desaparecer bens agora desaparecem em cinzas.
O Canto XXIV narra a difícil escalada de Dante e Virgílio pelas ruínas da ponte quebrada e a chegada à sétima vala de Malebolge, onde os ladrões são atormentados por serpentes. Ali Dante vê uma alma ser mordida, incendiar-se, virar cinzas e recompor-se; é Vanni Fucci, ladrão sacrílego de Pistoia, que confessa seu roubo e depois profetiza males futuros para ferir Dante.
Ao deixar aquela primeira visão da vala, senti que Malebolge se tornava cada vez mais instável.
Nos hipócritas, havia exterior dourado e interior de chumbo.
Nos ladrões, já não havia forma segura.
O pecado avançava da máscara para a metamorfose.
A fraude não apenas esconde a verdade; ela dissolve os contornos da pessoa.
Quem vive roubando limites acaba sem limites.
Quem vive tomando o que não é seu perde o domínio de si.
Quem escolhe a serpente como modo de vida acaba entregue às serpentes como eternidade.
E eu, seguindo Virgílio, compreendi que a sétima vala ainda não havia mostrado tudo. As transformações ficariam mais terríveis. O roubo, por ser violação da identidade e da posse, produziria cenas em que homem e serpente se misturariam de modo ainda mais monstruoso.
Mas isso viria a seguir.
Por ora, ficava diante de mim a imagem de Vanni Fucci: cinzas recompostas, vergonha sem arrependimento, profecia como veneno, e uma alma que, mesmo queimada e refeita, continuava querendo ferir.
