Deixamos para trás a vala dos aduladores.
A imagem deles ainda me causava repulsa. A palavra humana, criada para servir à verdade, havia sido reduzida a sujeira. O elogio falso, a bajulação, a fala usada para obter vantagem — tudo aquilo agora aparecia sem perfume, sem cortesia, sem máscara: excremento. Malebolge começava a revelar sua natureza. Aqui, o mal não vinha apenas como paixão descontrolada ou violência aberta. Vinha como falsificação de bens humanos.
Na primeira vala, o amor havia sido falsificado pela sedução.
Na segunda, a palavra havia sido falsificada pela adulação.
Agora chegaríamos à terceira.
E ali a falsificação seria ainda mais grave.
Porque não se tratava apenas de desejo ou linguagem.
Tratava-se do sagrado.
Virgílio me conduziu por uma ponte de pedra até a vala seguinte. Olhei para baixo e vi uma paisagem estranha, quase como um campo de batistérios deformados. Havia buracos redondos abertos na pedra, todos semelhantes, como fontes ou pias. Mas, em vez de receberem água para o nascimento espiritual, aqueles buracos aprisionavam almas de cabeça para baixo.
Somente as pernas apareciam para fora.
Os pés queimavam.
Chamas dançavam sobre as plantas dos pés, fazendo os condenados se contorcerem violentamente dentro dos buracos. Alguns se agitavam mais, outros menos, conforme a intensidade do fogo. A cena era grotesca e sagrada ao mesmo tempo, como se os sinais da Igreja tivessem sido invertidos em punição.
Perguntei a Virgílio quem eram aqueles.
Ele me explicou que ali estavam os simoníacos.
Aqueles que venderam ou compraram coisas espirituais.
Homens que fizeram comércio com o dom de Deus.
Essa resposta me causou indignação.
Eu já havia visto muitos pecados terríveis: luxúria, gula, avareza, ira, heresia, violência, suicídio, blasfêmia, sedução, adulação. Mas aqui havia algo particularmente ofensivo. O simoníaco não corrompe apenas o próprio desejo. Não destrói apenas o próximo. Não mente apenas com a boca. Ele pega aquilo que deveria ser sinal da graça e tenta transformá-lo em mercadoria.
Ele negocia o que não lhe pertence.
Porque o sagrado não é propriedade do sacerdote.
A graça não é mercadoria da instituição.
O dom de Deus não pode ser vendido como objeto de mercado.
O nome do pecado vem de Simão Mago, que quis comprar dos apóstolos o poder espiritual. Esse gesto revela a raiz do problema: confundir Espírito com técnica, ministério com posse, autoridade com comércio, bênção com transação. O simoníaco olha para o dom divino e pensa: “quanto vale?”, “quanto rende?”, “quanto poder me dá?”, “quanto posso cobrar?”
Por isso sua pena era uma inversão.
Em vez de estar de pé diante do altar, está de cabeça para baixo.
Em vez de elevar os olhos a Deus, tem a cabeça enterrada na pedra.
Em vez de lavar com água santa, é queimado nos pés.
Em vez de servir como canal da graça, está preso num buraco, substituído por outro quando chega novo condenado.
A posição invertida dizia tudo.
A simonia inverte a ordem espiritual.
O que deveria vir do alto é enterrado.
O que deveria servir ao céu é afundado na terra.
O que deveria ser dom vira negócio.
O ministro, que deveria conduzir almas para Deus, fica preso como se fosse objeto encaixado em pedra.
Virgílio me levou até um dos buracos.
Havia ali uma alma que se agitava mais violentamente que as outras. As chamas lambiam seus pés com força. Aquele condenado parecia esperar alguém. Como eu não podia falar diretamente com sua cabeça enterrada, Virgílio me colocou perto dele, e eu falei como frade que ouve a confissão de um assassino condenado, chamado a retardar a morte.
A imagem era dura.
Eu, peregrino vivo, inclinei-me sobre um condenado invertido, como se fosse ouvir uma confissão.
Mas ali a confissão não traria absolvição.
A alma, ouvindo minha voz, confundiu-me com outro que ainda viria.
Pensou que eu fosse Bonifácio VIII.
Gritou, surpreso:
“Já estás aí, Bonifácio? Já estás aí tão cedo?”
Essa pergunta me atravessou.
A alma enterrada era o papa Nicolau III.
E ele esperava a chegada de outro papa.
Bonifácio VIII, ainda vivo no meu tempo, mas já anunciado no Inferno como futuro condenado por simonia.
Isso era gravíssimo.
Dante não estava julgando apenas indivíduos obscuros. Estava colocando papas na vala dos simoníacos. O pecado atingia o topo da instituição visível. A Igreja, que deveria ser serva da graça, aparecia ferida por homens que usaram o sagrado para poder, riqueza e linhagem.
Nicolau III, ao perceber que eu não era Bonifácio, explicou sua condição.
Disse que fora filho da ursa, ligado à família Orsini, e que sua avareza o fizera colocar dinheiro acima do ministério. Confessou que, para enriquecer seus parentes, embolsou bens e agora ele mesmo estava embolsado na pedra. Essa correspondência era terrível: quem encheu bolsas e favoreceu a própria casa agora está enfiado num buraco como coisa guardada.
Ele explicou ainda a dinâmica da pena.
Quando outro simoníaco mais culpado chega, empurra o anterior mais para baixo no buraco. Assim, Nicolau aguardava Bonifácio; depois viria outro, ainda pior, associado a Clemente V, que faria comércio e corrupção ainda mais graves. A vala se torna uma sucessão de autoridades religiosas enterradas umas sobre as outras, como uma linhagem invertida da corrupção eclesiástica.
A imagem é devastadora.
Em vez de sucessão apostólica como serviço, há sucessão simoníaca como enterramento.
Em vez de Pedro transmitindo missão, há papas empurrando papas para baixo.
Em vez de chaves do Reino, há buracos de pedra.
Em vez de pastores elevando o povo, há líderes espirituais afundando uns aos outros.
Minha indignação cresceu.
Então falei com dureza.
Eu disse que Cristo não pediu ouro nem prata a Pedro antes de entregar-lhe as chaves. Disse que Pedro e os apóstolos escolheram Matias sem exigir pagamento. O fundamento apostólico era dom, chamado, serviço e graça; os simoníacos haviam transformado isso em mercado. Tinham feito do ouro e da prata seus deuses.
Acusei-os de prostituir a Igreja.
A imagem era forte: a esposa de Cristo sendo vendida. Aqueles que deveriam guardá-la como pura a entregaram ao comércio. Tornaram a autoridade espiritual instrumento de ambição. Fizeram da Igreja não mãe, mas objeto explorado. A simonia, portanto, não é apenas corrupção administrativa. É adultério espiritual.
Nicolau III permaneceu preso.
Seus pés continuavam queimando.
Mas minha fala se inflamou contra a corrupção de todo aquele sistema.
Lembrei a imagem do Apocalipse: a mulher sentada sobre as águas, prostituída com reis, embriagada de poder e riqueza. A crítica de Dante aqui é feroz: quando a Igreja se alia à cobiça e ao poder temporal como mercadoria, ela assume feições de Babilônia. O lugar que deveria ser santo se torna escândalo.
Aqui o Canto XIX alcança uma de suas maiores forças.
Dante é cristão profundamente comprometido com a fé e com a Igreja.
Justamente por isso ataca a corrupção eclesiástica com tanta violência.
Ele não critica a simonia porque despreza o sagrado, mas porque leva o sagrado a sério. Quem acha que a graça é irrelevante talvez não se escandalize quando ela é vendida. Mas quem sabe que a graça é dom divino sente horror quando homens a transformam em negócio.
A crítica nasce da reverência.
Não do cinismo.
Virgílio ouviu minhas palavras e aprovou.
Isso me confirmou que minha indignação, ali, estava ordenada. Diante de Francesca, minha compaixão havia sido perigosa. Diante de Filippo Argenti, minha repulsa começou a alinhar-se ao juízo. Agora, diante dos simoníacos, minha ira contra a corrupção do sagrado era justa. Há uma ira que pertence à desordem; mas há também indignação moral contra a profanação do bem.
A diferença está no amor que move a reação.
A ira infernal ama ferir.
A indignação justa ama o bem profanado.
Eu olhei novamente para os buracos.
A cena lembrava batismo invertido. Na pia batismal, a pessoa entra simbolicamente na morte e ressurreição de Cristo para nascer de novo. Ali, os simoníacos estavam enfiados de cabeça para baixo, não para renascer, mas para revelar que inverteram o nascimento espiritual em comércio. A chama nos pés podia lembrar também Pentecostes deformado: em vez de línguas de fogo sobre a cabeça dos discípulos, fogo nos pés de homens invertidos. O Espírito desce como dom; aqui o fogo queima como juízo.
Tudo era paródia do sagrado.
E isso aumentava a gravidade.
A fraude religiosa é uma das piores formas de fraude porque usa a confiança espiritual. Quem procura a Igreja procura Deus, perdão, orientação, sacramento, verdade, consolo, salvação. Quando um ministro usa essa confiança para ganho, ele não engana apenas uma pessoa; ele fere a mediação do santo. Coloca obstáculo onde deveria abrir caminho.
Por isso a simonia está em Malebolge.
Não é apenas avareza.
É fraude espiritual.
O avarento ama o dinheiro de modo desordenado.
O simoníaco usa Deus para obter dinheiro.
Isso é mais profundo.
Ele transforma o céu em moeda.
Ele usa o altar como balcão.
Ele converte a graça em produto.
Ao deixar aquela vala, eu compreendi que Malebolge estava descendo em gravidade. Sedutores e rufiões falsificavam o amor. Aduladores falsificavam o louvor. Simoníacos falsificavam a religião. Cada vala mostrava uma confiança humana sendo corrompida: o corpo, a palavra, agora o sagrado.
E quando o sagrado é corrompido, toda a ordem social adoece.
Porque a comunidade precisa de lugares onde a verdade não esteja à venda. Se até o altar é vendido, o que resta? Se até a bênção vira negócio, quem poderá confiar? Se o pastor negocia o rebanho, o lobo já entrou pela porta principal.
Virgílio me tomou com cuidado e me conduziu para a próxima ponte.
A terceira vala ficou atrás de nós, mas sua imagem continuou ardendo em mim: pernas para fora, cabeças enterradas, pés em chamas, papas esperando papas, buracos como pias invertidas, sucessão de corrupção empurrando os antigos para mais fundo.
O Canto XIX apresenta a terceira vala de Malebolge, onde estão os simoníacos, aqueles que compraram ou venderam bens espirituais. Dante encontra o papa Nicolau III, que o confunde com Bonifácio VIII, e anuncia ainda a vinda de outro papa corrupto. A pena — almas enterradas de cabeça para baixo em buracos, com os pés queimando — simboliza a inversão do sagrado em comércio.
Ao seguir, eu entendi uma coisa com clareza:
não há profanação pequena quando o dom de Deus é tratado como mercadoria.
O dinheiro pode corromper mercados.
Pode corromper cidades.
Pode corromper famílias.
Mas, quando corrompe o altar, a ferida se torna espiritual e pública ao mesmo tempo.
E ali, naquela vala, a Igreja aparecia não destruída por Deus, mas purificada no juízo contra aqueles que a venderam.
O sagrado não está à venda.
E quem o vende acaba invertido, enterrado, queimando pelos próprios pés, incapaz de olhar para o alto que transformou em negócio.
