Eu ainda estava diante do leão.

A fera malhada havia me impedido com sua agilidade sedutora. O leão, com sua cabeça erguida e seu avanço ameaçador, havia esmagado minha coragem. Eu estava preso entre o desejo de subir e a força que me fazia recuar. O monte continuava iluminado, mas sua luz parecia cada vez mais distante de mim.

Então veio a terceira fera.

Uma loba.

E com ela, a esperança quase morreu.

Ela não apareceu como a primeira, cheia de movimento leve e malícia sedutora. Também não surgiu como o leão, com força aberta, cabeça alta e ameaça frontal. A loba era diferente. Era magra, faminta, seca, carregada de uma fome que parecia não ter fim. Seu corpo parecia feito de carência. Sua presença não era apenas perigosa; era devastadora.

Ao vê-la, senti que algo em mim desabava.

A primeira fera me confundira.

O leão me aterrorizara.

Mas a loba me roubou a esperança.

Ela avançava com uma fome tão profunda que parecia trazer consigo todos os desejos insaciáveis do mundo. Não era fome de alimento apenas. Era fome de possuir, de tomar, de acumular, de devorar, de nunca se satisfazer. Quanto mais parecia receber, mais vazia parecia ficar. Era uma criatura da falta sem cura.

E eu compreendi que essa era a fera mais terrível.

Porque há desejos que se satisfazem por um instante e depois passam. Há violências que se erguem, atacam e se retiram. Mas a fome da loba era diferente. Ela não terminava. Ela consumia e continuava vazia. Devora e continua querendo. Recebe e continua pobre. Aproxima-se não apenas para impedir a subida, mas para empurrar a alma de volta ao vale, ao baixo, à selva, ao lugar de onde ela tentou fugir.

Quando a loba apareceu, meu corpo recuou quase sem decisão.

Não pensei. Recuar foi instinto.

A luz do monte, que antes me chamava, parecia perder força diante daquela fome. Não porque o sol tivesse diminuído, mas porque minha alma foi tomada por pavor. A loba carregava uma espécie de poder sombrio: fazia o alto parecer impossível, fazia a subida parecer ingenuidade, fazia a esperança parecer ilusão.

Senti-me como alguém que ajuntou riquezas, expectativas, planos, desejos e imagens de futuro, mas vê tudo ruir diante de uma força que nunca se sacia. A loba parecia dizer que nada basta. Nenhum bem basta. Nenhum avanço basta. Nenhuma posse basta. Nenhuma vitória basta. Ela era a imagem de uma alma, de uma sociedade e de um mundo governados pela avidez.

E isso me atingiu profundamente.

Porque eu não podia olhar para ela como se fosse apenas uma criatura externa. Assim como as outras feras, ela também revelava algo humano. Havia em mim medo dela porque havia em mim algo que a reconhecia. A fome sem medida não pertence apenas aos grandes impérios, aos ricos, aos tiranos ou aos corruptos. Ela pode habitar discretamente qualquer coração: fome de segurança, de controle, de aprovação, de prazer, de reconhecimento, de poder, de possuir o que não pode salvar.

A loba era a avareza em sentido profundo.

Não apenas amor ao dinheiro.

Era a incapacidade de repousar no bem.

Era a alma transformada em vazio faminto.

Era a criação recebida como dom sendo convertida em objeto de apropriação.

Era a fome que transforma tudo em recurso, tudo em posse, tudo em cálculo, tudo em carência.

Por isso ela me feriu mais que as outras.

A fera malhada ainda deixava alguma esperança, porque seu perigo tinha leveza. O leão, embora terrível, era uma ameaça visível, quase nobre em sua violência. Mas a loba era miséria espiritual pura. Ela parecia carregar muitas vidas destruídas em sua magreza. Parecia ter feito muitos homens infelizes. Parecia ter atravessado cidades, casas, tronos, mercados, igrejas e corações, sempre deixando atrás de si um rastro de inquietação.

Eu recuei.

A subida começou a desfazer-se diante dos meus olhos.

Cada passo para trás parecia apagar a esperança que eu havia sentido ao ver o monte. Eu tinha acreditado que bastaria vencer o medo inicial e seguir em direção à luz. Agora percebia que a situação era muito pior. As feras não eram obstáculos isolados; eram uma sequência de revelações. Cada uma mostrava uma camada mais profunda da minha impotência.

A primeira me impedia de avançar.

A segunda me fazia temer.

A terceira me empurrava de volta.

E esse era o ponto decisivo: a loba não apenas bloqueava o caminho. Ela me fazia perder terreno. Sob sua presença, eu descia. A região alta parecia afastar-se. O vale escuro se aproximava. A selva, que eu havia deixado para trás com tanto esforço, começava a parecer inevitável novamente.

Foi como se eu estivesse sendo puxado de volta para o lugar onde o sol se cala.

Minha respiração se tornou pesada. Os pés já não procuravam a subida; procuravam escapar. O olhar, antes erguido para o monte, agora se perdia entre a fera e o terreno abaixo. Eu sentia em mim a derrota de quem vê o bem, deseja o bem, tenta aproximar-se do bem, mas é arrastado por forças que não consegue vencer.

Ali compreendi que a vontade humana, quando está ferida, não consegue restaurar-se sozinha.

Não basta acordar.

Não basta reconhecer a selva.

Não basta ver o monte.

Não basta desejar a luz.

Há feras no caminho. E algumas delas são mais antigas, mais profundas e mais famintas do que a coragem individual.

A loba continuava avançando.

Sua magreza era paradoxal: parecia fraca, mas era a mais poderosa. Seu vazio era sua força. Sua carência era sua agressão. Quem é governado pela fome sem limite nunca para. Quem nunca se sacia nunca descansa. E quem nunca descansa transforma o mundo inteiro em presa.

Eu via nela não apenas um vício pessoal, mas um princípio de desordem coletiva.

A loba poderia governar mercados.

Poderia governar impérios.

Poderia governar famílias.

Poderia governar até formas religiosas, quando o sagrado é usado como meio de posse, prestígio e domínio.

Ela era mais que avareza econômica. Era a fome deformadora da alma e das estruturas. Era o desejo curvado sobre si mesmo até perder toda abertura para o alto. Onde a loba governa, a luz do monte parece inútil, porque tudo é reduzido ao instinto de apropriação.

E eu estava diante dela sem defesa.

O medo que senti foi diferente de todos os outros. Com a fera malhada, eu ainda podia tentar contornar. Com o leão, ainda podia imaginar algum confronto. Com a loba, não. Ela parecia sugar até a possibilidade de tentativa. Sua presença me diminuía. Eu já não me via como peregrino; via-me como presa.

Então comecei a descer.

Não voluntariamente, mas arrastado pelo pavor.

A subida, que havia começado com esperança, transformou-se em recuo. O monte ficava para trás. O sol ainda brilhava, mas parecia não alcançar o lugar para onde eu era empurrado. A sombra crescia. O coração afundava. A selva, novamente, parecia abrir sua boca escura.

Eu queria resistir.

Mas resistir com que força?

Eu havia descoberto meus limites. A sedução me desestabilizava. A soberba me aterrorizava. A avidez me esmagava. E diante das três, minha tentativa de subir sozinho se revelou ilusória. A jornada não poderia seguir como simples retorno moral. Eu precisava de socorro.

Mas ainda não sabia de onde viria.

A loba me perseguia com sua fome.

E quanto mais ela avançava, mais eu compreendia que aquela fome era inimiga direta da restauração. A restauração exige que a alma receba a vida como dom; a loba transforma tudo em posse. A restauração exige ordem dos desejos; a loba torna o desejo infinito e desgovernado. A restauração exige abertura ao alto; a loba prende a alma no baixo, no cálculo, na insegurança, na acumulação e na ansiedade.

Por isso ela me lançava para trás.

Porque a alma dominada pela fome não sobe.

Ela cava.

Cava dentro de si mesma.

Cava no mundo.

Cava nos outros.

E quanto mais cava, mais vazia fica.

Eu sentia isso no corpo. Cada passo para trás era uma confissão amarga: eu não podia vencer aquela fera. Não naquele estado. Não com minhas forças. Não apenas porque ela era poderosa, mas porque tocava em uma ferida profunda da condição humana.

A loba parecia ter devorado muitos antes de mim.

Dante, ao vê-la, percebe que ela já fizera muitos viverem infelizes. Essa observação é central: a loba não é uma tentação pequena ou privada; ela é uma potência histórica de miséria, um princípio que atravessa pessoas e povos, deixando insatisfação mesmo onde há abundância.

A esperança inicial, que havia nascido quando vi o monte iluminado, agora estava quase extinta.

Quase.

Mas não totalmente.

Porque, mesmo recuando, eu ainda sabia que havia luz. Mesmo sendo empurrado para baixo, eu ainda carregava a lembrança do alto. Mesmo derrotado, eu ainda não havia desaparecido na selva. Havia em mim uma última abertura, não mais como confiança em mim mesmo, mas como necessidade de ajuda.

Esse foi o ponto mais doloroso e mais verdadeiro.

Enquanto eu achava que podia subir sozinho, minha esperança ainda tinha algo de orgulho. Mas quando a loba me venceu, minha esperança mudou de natureza. Ela deixou de ser confiança em minha capacidade e tornou-se clamor silencioso por socorro.

A derrota começou a preparar a possibilidade da graça.

Mas, naquele instante, eu não via ainda a graça.

Eu via a fera.

Eu via o caminho descendo.

Eu via a luz ficando distante.

E sentia que a selva me chamava outra vez.

A loba, com sua fome sem fim, continuava me empurrando para o lugar escuro. E eu, Dante, quase vencido, quase sem esperança, quase entregue ao retorno, compreendi finalmente que a estrada reta não seria reencontrada pela força de minha vontade ferida.

Era necessário que alguém viesse.

Alguém que conhecesse outro caminho.

Alguém que pudesse falar comigo quando minha alma já não conseguia se guiar.

Alguém que surgisse entre a ruína e o retorno à selva.

E foi justamente quando eu descia, perdendo a esperança da subida, que uma presença começou a aparecer diante de mim.

Ainda indistinta.

Ainda silenciosa.

Mas real.

No limite do desespero, antes que a selva me tragasse novamente, eu não encontrei a vitória.

Encontrei a necessidade de ser conduzido.