Deixamos a última vala de Malebolge.
A briga entre Mestre Adão e Sinon ainda me envergonhava. Eu havia me detido demais ouvindo aquela troca baixa de insultos, e Virgílio me corrigira com firmeza. A décima vala dos falsificadores terminara mostrando não apenas a doença da mentira, mas também o risco de o observador se contaminar pelo prazer da degradação alheia. A viagem pelo Inferno não purificava apenas minhas ideias; purificava também meu olhar.
Agora avançávamos para além de Malebolge.
O oitavo círculo ficava para trás.
Mas o fundo ainda não havia chegado.
Abaixo da fraude comum estava a traição.
E, entre uma e outra, havia uma região de transição: o grande poço dos gigantes.
Enquanto caminhávamos, o ar parecia mudar. Já não víamos as valas ordenadas de Malebolge, com suas pontes, fossos e punições específicas. A paisagem começava a abrir-se para algo mais vasto, mais vertical, mais ameaçador. Eu sentia que estávamos nos aproximando de uma borda extrema, como se o Inferno inteiro afunilasse rumo ao último abismo.
Então ouvi um som poderoso.
Um toque de trombeta.
Era tão forte que superava qualquer trovão. Meu corpo inteiro foi atravessado por aquele som. Não vinha como música ordenada, mas como brado imenso, quase bruto, chamando a atenção para algo descomunal. Lembrei-me da trompa de Roldão em Roncesvales, mas aquilo parecia ainda mais grave. Era um som que não pertencia à medida humana.
Olhei ao longe.
No início, pensei ver torres.
Grandes torres cercando o poço.
A escuridão, a distância e o medo enganavam meus olhos. Pareciam construções gigantescas, muralhas ou fortalezas elevadas ao redor do abismo. Mas Virgílio, que via melhor, corrigiu-me. Não eram torres.
Eram gigantes.
Apenas a parte superior de seus corpos aparecia acima da borda do poço. O restante estava oculto ou preso abaixo. Eles se erguiam como torres humanas, enormes, terríveis, imóveis ou quase imóveis, guardando o limite entre a fraude e a traição.
A visão me tomou de assombro.
Depois de tantas formas de pecado refinado, arquitetônico, verbal, político e religioso, surgia diante de mim uma força antiga, colossal, quase primitiva. Os gigantes pertenciam a uma memória de rebelião contra o céu. Eram figuras da desmedida, da força sem proporção, da criatura que deseja elevar-se contra Deus. Tinham tamanho imenso, mas não verdadeira grandeza. Eram grandes no corpo e pequenos na ordem espiritual.
Virgílio me conduziu com cuidado.
A aproximação tornava as figuras mais claras. Cada gigante parecia montanha viva. Suas cabeças eram enormes; seus braços, ameaçadores; sua presença, esmagadora. Mas estavam presos. A força deles não se convertia em liberdade. Sua potência era contenção. Eram imagens da soberba antiga reduzida à impotência.
Então nos aproximamos do primeiro.
Ele começou a falar.
Mas suas palavras eram confusas, incompreensíveis:
“Raphèl maì amècche zabì almi.”
A frase soou como ruína da linguagem.
Virgílio logo o identificou.
Era Nimrod.
Aquele ligado à construção da torre de Babel.
Sua pena era profundamente adequada. Em vida, Nimrod está associado à rebelião coletiva que tentou erguer uma torre até o céu, resultando na confusão das línguas. Agora, ele mesmo fala sem ser compreendido. Sua linguagem, que deveria comunicar, tornou-se isolamento. Ele entende apenas a si mesmo, e ninguém o entende.
Isso me impressionou muito.
Depois de Malebolge, onde a palavra foi deformada de tantas maneiras — adulação, simonia, mau conselho, discórdia, falsificação —, encontrar Nimrod era como chegar à raiz simbólica da linguagem quebrada. Babel não é apenas episódio antigo. É o sinal de toda comunidade que, movida por soberba, tenta alcançar o céu por força própria e acaba perdendo a comunhão da palavra.
Nimrod tem tamanho imenso.
Mas sua fala não comunica.
Ele é uma torre viva da incomunicabilidade.
A soberba quis construir uma cidade vertical contra Deus; agora o construtor aparece como gigante preso, incapaz de partilhar sentido. Isso é muito forte: a desmedida contra o céu destrói a linguagem entre os homens. Quem pretende unificar a humanidade pela arrogância termina produzindo dispersão.
Virgílio não se demorou.
Disse a Nimrod que ficasse com sua trompa e descarregasse nela sua fúria, pois no pescoço trazia o instrumento que usava para fazer barulho. Era uma resposta severa: se sua palavra não comunica, resta-lhe o ruído. Nimrod não podia guiar, ensinar ou dialogar. Só podia soar sua trompa e permanecer em sua confusão.
Seguimos adiante.
Encontramos outro gigante.
Era Efialtes.
Diferente de Nimrod, sua pena não era a confusão da fala, mas a prisão da força rebelde. Estava acorrentado. Seus braços enormes eram mantidos presos por correntes pesadas. Virgílio explicou que ele participara da tentativa dos gigantes de lutar contra os deuses, contra o alto. Por isso agora estava amarrado, incapaz de mover os braços com os quais quis desafiar o céu.
Quando Efialtes se agitou, a terra tremeu.
Eu senti medo.
O simples movimento dele parecia capaz de abalar a região. Se estivesse livre, pensei, sua força seria devastadora. Mas justamente por isso estava preso. A justiça divina não elimina o tamanho da criatura, mas limita sua rebelião. A potência que se ergueu contra o céu agora é contida por correntes.
Efialtes representa a violência da soberba titânica.
Não é fraude refinada.
Não é mentira sutil.
É força colossal contra o alto.
Mas ali, no limite do último círculo, sua presença mostra algo importante: a traição que veremos abaixo não nasce simplesmente de fraqueza. Ela está ligada ao orgulho antigo, à recusa de submeter a força criada ao Criador. Os gigantes são guardiões da passagem porque condensam a desmedida que prepara o fundo do Inferno.
Perguntei, ou desejei saber, se poderíamos ver Briareu, outro gigante terrível. Virgílio explicou que ele estava mais distante, preso como Efialtes, e que não valia a pena ir até lá. Em vez disso, precisávamos de um gigante que pudesse ajudar na descida.
Esse gigante era Anteu.
Diferente de Nimrod e Efialtes, Anteu não participara da guerra contra os deuses olímpicos. Por isso não estava acorrentado do mesmo modo. Sua força imensa ainda podia servir, sob ordem, como instrumento para nos colocar no fundo do poço. Ele havia sido vencido por Hércules na tradição antiga, mas aqui aparece como aquele que pode carregar Dante e Virgílio até o último círculo.
Virgílio aproximou-se dele com prudência.
Falou-lhe de modo calculado, apelando à sua fama. Lembrou suas vitórias, sua força, os leões que caçara no vale de Zama, e disse que, se tivesse participado da guerra dos gigantes, talvez os filhos da terra tivessem vencido. Virgílio sabia que Anteu, como criatura orgulhosa, podia ser movido pelo desejo de glória. Usou elogio estratégico para obter sua cooperação.
Isso me chamou atenção.
Virgílio não adula no sentido fraudulento da segunda vala, mas fala com prudência retórica. Há diferença entre manipulação mentirosa e discurso adequado à condição do interlocutor. Diante de gigantes, a razão precisa agir com cautela. Anteu não é guia moral; é força a ser usada. Virgílio move sua disposição para cumprir a função necessária.
Pediu-lhe que nos levasse ao fundo do abismo, onde Judas estava preso.
Ao ouvir a promessa de que sua fama poderia ser levada ao mundo dos vivos, Anteu inclinou-se.
Sua mão enorme tomou Virgílio.
E Virgílio me abraçou para que fôssemos carregados juntos.
O gesto foi assustador.
A mão de Anteu era como uma torre inclinando-se sobre nós. Senti-me minúsculo. O gigante nos segurou como alguém segura um objeto pequeno. Por um instante, minha vida parecia depender da força de uma criatura imensa, antiga e perigosa. Mas Virgílio estava comigo. Como em Gerião, eu atravessava o perigo abraçado ao guia.
Anteu nos ergueu.
Depois começou a inclinar-se para baixo, para dentro do poço.
A descida foi silenciosa e terrível.
No Canto XVII, havíamos descido sobre Gerião, símbolo da fraude, voando ou nadando no ar até Malebolge. Agora descíamos nas mãos de um gigante, símbolo da força titânica. A passagem para a traição exigia outro tipo de transporte. A fraude nos levara ao oitavo círculo. A força primordial nos depositaria no nono.
Isso mostrava que o último círculo é mais profundo que a fraude comum.
A traição não é apenas engano.
É engano contra vínculo fundamental.
É força fria contra a confiança.
É ruptura do laço mais íntimo.
Para chegar até ela, passamos entre gigantes, figuras de desmedida antiga, como se a história da soberba humana guardasse a porta do gelo final.
Quando Anteu nos colocou no fundo, fez isso com cuidado.
Depois se ergueu novamente, como mastro de navio voltando à posição vertical. Nós estávamos agora no fundo do poço, próximos ao último círculo. A paisagem mudaria completamente. Depois do fogo, do piche, do sangue, da doença, das chamas, das serpentes e das mutilações, viria o gelo.
Isso me surpreendia.
Eu talvez esperasse que o fundo do Inferno fosse fogo maior.
Mas não.
O último círculo é gelo.
Porque a traição não é paixão ardente.
É frieza do amor morto.
É congelamento da caridade.
É a alma que não apenas erra, deseja ou engana, mas quebra a confiança de modo frio, fechado, endurecido. A traição não queima como luxúria, ira ou blasfêmia. Ela congela. Mata o vínculo por dentro. Por isso, ao nos aproximarmos de Cócito, o grande lago gelado, eu começava a sentir outra espécie de horror.
O Canto XXXI apresenta a transição entre Malebolge e o último círculo do Inferno. Dante e Virgílio chegam ao poço dos gigantes, onde veem Nimrod, ligado à confusão de Babel; Efialtes, acorrentado por sua rebelião contra o céu; e Anteu, que, não estando preso do mesmo modo, carrega os viajantes até o fundo do poço, preparando a entrada no lago gelado dos traidores.
Ao olhar para trás, entendi a função daquele lugar.
Os gigantes não são apenas monstros de transição.
Eles mostram a desmedida que precede o fundo.
A criatura que tenta elevar-se contra Deus termina presa, confusa, inútil ou reduzida a instrumento.
Nimrod quis torre e ficou sem linguagem.
Efialtes quis guerra contra o alto e ficou acorrentado.
Anteu conservou força, mas só a usa para obedecer a uma função dentro do juízo.
Nenhum deles é livre.
A grandeza sem ordem vira prisão.
A força sem humildade vira impotência.
A linguagem sem Deus vira ruído.
Agora, à nossa frente, começava a região final.
A traição.
O lago de Cócito.
O gelo onde as almas que quebraram vínculos fundamentais permanecem presas.
Virgílio seguia comigo.
E eu compreendi que, depois de atravessar a fraude, entraríamos na forma mais baixa do mal: não a paixão que arrasta, nem a violência que fere, nem a mentira que engana, mas a confiança traída.
O amor, no fundo do Inferno, não arde.
Ele congela.
