Deixamos para trás as chamas dos maus conselheiros.

Ainda me acompanhavam as vozes de Ulisses e Guido da Montefeltro. Ulisses havia mostrado a inteligência heroica separada da obediência, o desejo de conhecer transformado em transgressão. Guido havia revelado algo ainda mais perigoso: a falsa segurança religiosa, a absolvição tratada como licença para pecar, a graça manipulada como instrumento político. Ambos ardiam porque usaram a mente e a palavra para conduzir outros ao mal.

Agora nos aproximávamos da nona vala de Malebolge.

Eu ainda estava dentro do reino da fraude, mas sentia que a matéria do pecado mudava. Aqui não se tratava apenas de aconselhar mal. Tratava-se de dividir. Ferir vínculos. Rasgar unidades. Separar aquilo que deveria permanecer unido.

Ao olhar para baixo, vi uma cena tão horrível que minha linguagem quase falhou.

Havia corpos mutilados.

Almas abertas.

Membros cortados.

Feridas imensas.

Sangue.

Dor.

Gritos.

Era como se todos os campos de batalha da terra, com seus mortos e feridos, tivessem sido reunidos numa única vala. Pensei nas guerras mais sangrentas, nos corpos despedaçados, nos exércitos caídos, nos massacres que a memória humana não consegue suportar sem tremer. Mesmo assim, nenhuma comparação parecia suficiente.

A nona vala era um campo de divisão tornado eterno.

Virgílio me explicou que ali estavam os semeadores de escândalo, cisma e discórdia.

Aqueles que, em vida, dividiram pessoas, famílias, cidades, religiões, povos, partidos, comunidades e vínculos sagrados. Usaram palavras, doutrinas, intrigas, traições, conselhos, discursos ou ações para separar o que deveria estar unido. Agora seus próprios corpos são separados.

A pena era direta.

Quem dividiu é dividido.

Quem rasgou a comunhão é rasgado.

Quem abriu feridas no corpo social, político, familiar ou religioso agora traz o próprio corpo aberto.

Um demônio os corta com espada.

Eles caminham pela vala. A ferida se fecha lentamente enquanto dão a volta. Mas, ao retornarem diante do demônio, são cortados de novo. A divisão que produziram no mundo torna-se repetição eterna. Não há cura final, porque a vontade deles permanece fixada no mal que semearam. Há apenas fechamento parcial e novo golpe.

Essa imagem me impressionou profundamente.

A discórdia não é apenas conflito comum.

Há conflitos necessários. Há divisões inevitáveis quando a verdade precisa separar-se da mentira. Há momentos em que a paz aparente encobre injustiça. Mas os condenados dessa vala não são os que defenderam a verdade com custo; são os que semearam separação por malícia, ambição, orgulho, manipulação, heresia, facção ou ódio. Eles não curaram comunidades. Rasgaram-nas.

A unidade é um bem delicado.

Família, cidade, Igreja, amizade, povo, aliança, confiança, corpo social — tudo isso exige vínculo. Quem trabalha para dividir esses vínculos atinge algo profundo da ordem humana. A violência mata corpos; a fraude destrói confiança; a discórdia destrói comunhão.

Por isso a mutilação é tão grave.

Vi então uma alma caminhar diante de mim, aberta do queixo até onde o corpo se divide. Seus órgãos apareciam. O peito estava rasgado. A visão era quase insuportável. Ele abriu o próprio corpo com as mãos, mostrando a ferida, e disse:

“Vê como Maomé está dilacerado.”

Ao lado dele vinha Ali, com o rosto fendido.

Na estrutura medieval de Dante, eles aparecem nessa vala como causadores de cisma religioso. A imagem é dura e precisa ser lida dentro do universo teológico-político do poema: Dante os coloca entre os que dividiram a unidade religiosa, e por isso seus corpos estão divididos. Maomé aparece rasgado no tronco; Ali, fendido no rosto. A pena mostra, no corpo, a ruptura que Dante atribui à história religiosa.

Maomé então falou.

Disse que, antes dele, caminhava Ali chorando, com o rosto aberto. Depois explicou que todos os que estavam naquela vala foram semeadores de escândalo e cisma. Um demônio os fere repetidamente, pois, ao completarem a volta, suas feridas se fecham apenas para serem abertas outra vez.

A fala dele não suavizava a cena.

Pelo contrário, tornava a pena mais inteligível.

O cisma não é uma ferida que termina no ato inicial. Ele continua produzindo consequências. Uma divisão religiosa ou política pode atravessar séculos. Pode gerar novas guerras, novas desconfianças, novas identidades inimigas, novas feridas herdadas por gente que nem participou da ruptura original. Por isso a pena se repete. A ferida fecha e reabre. A discórdia histórica funciona assim: parece cicatrizar, mas volta a sangrar.

Então Maomé me fez uma pergunta.

Quis saber quem eu era, demorando-me na ponte, talvez para adiar a pena que me aguardava.

Virgílio respondeu por mim.

Disse que eu não era morto, nem condenado, mas que ele me conduzia pelo Inferno para me dar plena experiência dele. Ao ouvirem isso, muitas almas da vala pararam espantadas, esquecendo por um instante sua dor. Minha presença viva continuava a provocar admiração entre os mortos.

Maomé então me pediu que, ao voltar ao mundo, advertisse Fra Dolcino.

Disse que, se ele não quisesse segui-lo em breve, deveria abastecer-se de alimentos, para que a neve não desse vitória aos novareses. Essa profecia ou aviso ligava novamente o Inferno à história futura de conflitos religiosos e militares. A discórdia não estava encerrada. Continuava no mundo dos vivos, preparando novas quedas, cercos, violências e derrotas.

Seguimos.

Outra alma apareceu.

Tinha a garganta cortada, o nariz decepado até as sobrancelhas e apenas uma orelha. Ao ver-me, abriu a boca e olhou com espanto. Era Pier da Medicina. Ele pediu que eu lembrasse aos homens da região entre Vercelli e Marcabò que dois homens nobres, Guido del Cassero e Angiolello da Carignano, seriam traídos e lançados ao mar por Malatestino de Rimini.

Aqui a discórdia toma forma política.

Pier da Medicina fora conhecido por semear intrigas entre senhores e cidades. Sua pena, com garganta e nariz cortados, mostra a palavra e o rosto mutilados. A boca que alimentou divisões agora é ferida. A comunicação que deveria aproximar torna-se instrumento de separação, e por isso o corpo que comunicava é cortado.

Ele também apontou outro condenado.

Curio.

Aquele que, segundo a tradição romana, aconselhou César a atravessar o Rubicão e iniciar a guerra civil. Curio estava com a língua cortada. Isso era perfeito: sua língua incitou a divisão da República. Ele disse a César que quem está preparado sempre sofreu dano com a demora, empurrando-o à decisão que rasgaria Roma. Agora, a língua que provocou a guerra civil está mutilada.

Essa imagem é poderosa.

Uma frase pode abrir guerra.

Um conselho pode dividir uma República.

Uma palavra pode empurrar um homem poderoso a atravessar uma fronteira histórica.

A discórdia não começa apenas com espadas.

Começa com línguas.

Com conselhos.

Com discursos.

Com intrigas.

Com frases que tornam o rompimento inevitável.

Depois vi Mosca dei Lamberti.

Tinha as mãos cortadas. Erguia os cotos ensanguentados e gritava: “Coisa feita tem fim!” Essa frase, segundo a memória florentina, incentivou um assassinato que desencadeou divisões entre guelfos e gibelinos. Ao dizer que o feito encerraria a questão, ajudou a abrir uma ferida histórica muito maior. Agora está sem mãos, porque participou da ação que lançou Florença em discórdia.

Eu lhe respondi que aquela frase trouxe morte à sua linhagem.

Ele se afastou, aumentando sua dor.

Mais uma vez, Florença aparece.

A cidade de Dante é atravessada por divisões antigas. A discórdia não é apenas tema religioso ou romano; é ferida doméstica, urbana, familiar, partidária. A palavra de Mosca mostra a falsa lógica da violência política: “vamos resolver com um ato definitivo”. Mas o ato definitivo não encerra; inaugura ciclo de vingança.

A discórdia sempre promete solução rápida.

Mas deixa herança longa.

Por fim, vi uma figura que parecia impossível.

Um corpo caminhava sem cabeça.

Segurava a própria cabeça pelos cabelos, como lanterna. A cabeça olhava para nós e falava, separada do tronco. Era Bertran de Born, poeta e nobre, acusado de ter semeado divisão entre o rei Henrique II da Inglaterra e seu filho.

Ele levantou a cabeça como lâmpada e disse que, porque separara pessoas tão unidas — pai e filho —, agora carregava separado o próprio princípio de seu corpo. Seu cérebro, origem do conselho, estava separado do tronco. Assim se cumpria nele o contrapasso.

Essa imagem encerra o canto com força extraordinária.

Bertran dividiu pai e filho.

Agora está dividido de si mesmo.

A cabeça, que aconselhou, separada do corpo que deveria governar.

A luz que ele carrega não é iluminação verdadeira, mas exposição de sua culpa. Ele se torna sua própria lanterna infernal: a inteligência separada da unidade, a palavra poética usada para cindir vínculos, o conselheiro que transformou talento em instrumento de ruptura.

Diante dele, compreendi a gravidade da discórdia.

O ser humano não vive isolado.

Nasce de vínculos.

Pai e filho.

Irmãos.

Cidade e cidadão.

Pastor e povo.

Mestre e discípulo.

Amigos.

Aliança.

Comunidade.

Corpo e cabeça.

Quando alguém trabalha para separar vínculos que deveriam permanecer unidos no bem, ele ataca a própria arquitetura relacional da vida. Por isso, na nona vala, o corpo se torna mapa da ruptura. As feridas não são aleatórias. Cada mutilação expressa uma divisão semeada.

A língua cortada.

As mãos decepadas.

O tronco aberto.

A cabeça separada.

O rosto fendido.

A garganta rasgada.

Tudo fala.

Ou melhor: tudo mostra o que a fala corrompida fez.

O Canto XXVIII apresenta a nona vala de Malebolge, onde estão os semeadores de escândalo, cisma e discórdia. Eles são mutilados repetidamente por um demônio, pois dividiram aquilo que deveria permanecer unido. Entre eles aparecem Maomé e Ali, Pier da Medicina, Curio, Mosca dei Lamberti e Bertran de Born, cada qual trazendo no corpo a forma simbólica da divisão que produziu.

Ao seguir com Virgílio, levei comigo uma certeza amarga:

a divisão maliciosa é uma violência contra a comunhão.

Ela pode vestir-se de zelo.

Pode parecer estratégia.

Pode ser chamada de prudência.

Pode ser justificada como necessidade política.

Pode até usar poesia, religião, conselho ou honra familiar.

Mas, se seu fruto é rasgar o que deveria permanecer unido no bem, ela pertence a esta vala.

A discórdia não termina quando o discurso acaba.

Ela continua sangrando nos corpos, nas famílias, nas cidades e nas igrejas.

E, no Inferno, essa verdade aparece sem metáfora suave:

quem rasga a unidade será rasgado.