Saímos da sétima vala.

Mas as imagens dos ladrões ainda se moviam dentro de mim.

Homens virando serpentes.

Serpentes tomando forma humana.

Corpos se fundindo.

Identidades sendo roubadas, trocadas, dissolvidas.

Aquela vala havia mostrado que o furto não atinge apenas objetos. Quem viola o limite entre o próprio e o alheio acaba perdendo o limite de si mesmo. O ladrão, que pensava possuir mais, termina sem possuir nem a própria forma.

Agora avançávamos para a oitava vala de Malebolge.

Enquanto subíamos pela ponte de pedra, olhei para baixo e vi muitas luzes espalhadas na escuridão. À primeira vista, pareciam vagalumes no campo, quando o camponês repousa na colina e observa o vale iluminado por pequenos brilhos na noite. Mas eu sabia que, no Inferno, nenhuma beleza deve ser aceita sem discernimento.

Aquelas luzes eram chamas.

E cada chama escondia uma alma.

Virgílio me explicou que ali estavam os maus conselheiros.

Homens que usaram a inteligência, a palavra e a prudência não para conduzir ao bem, mas para enganar, manipular, aconselhar o mal, arquitetar fraudes, guerras e destruições. Sua pena era arder dentro de línguas de fogo. Eles haviam usado a língua e a mente como instrumentos de desvio; agora estavam encerrados em fogo que fala.

A imagem era profunda.

A língua humana é uma das maiores forças da vida moral.

Com ela se ensina.

Com ela se aconselha.

Com ela se orienta.

Com ela se consola.

Com ela se proclama a verdade.

Mas também com ela se engana, se persuade para o mal, se justifica a violência, se prepara traição, se encobre ambição, se dá aparência de sabedoria à ruína. O mau conselheiro não é simplesmente quem erra. É quem usa a inteligência para fazer o outro errar.

Por isso está tão baixo em Malebolge.

A fraude aqui já não é apenas sedução do corpo, adulação da vaidade, comércio do sagrado, manipulação do tempo, corrupção pública, hipocrisia ou roubo. Agora a fraude se torna conselho. Ela entra no campo da prudência, da estratégia, da palavra orientadora. A pessoa confia em quem aconselha. O conselho deveria servir à verdade. Quando se torna instrumento de perdição, a confiança é envenenada.

Cada chama parecia uma língua.

Mas uma língua invertida.

Em vida, aquelas almas falaram para incendiar o mundo.

Agora ardem dentro da própria fala.

Uma chama chamou minha atenção.

Era dividida em duas pontas, como se um mesmo fogo carregasse duas almas. Lembrava a chama que subiu da pira de Etéocles e Polinices, irmãos inimigos. Perguntei a Virgílio quem estava ali. Ele respondeu que dentro daquela chama estavam Ulisses e Diomedes, unidos na pena como foram unidos em astúcias e enganos.

Ulisses.

Ao ouvir esse nome, minha atenção se inflamou.

Eu conhecia sua fama.

Astuto, engenhoso, navegador, guerreiro, homem de muitos recursos. Herói da tradição antiga, célebre por sua inteligência. Mas ali não aparecia como modelo heroico puro. Estava entre os maus conselheiros. Sua astúcia, admirada pelos homens, era agora julgada por Deus.

Virgílio explicou que eles estavam ali por três grandes enganos: o cavalo de Troia, pelo qual a cidade foi vencida; a fraude que levou Aquiles à guerra, causando dor a Deidamia; e o roubo do Paládio, objeto sagrado ligado à proteção de Troia. Em todos esses casos, a inteligência foi usada como arma de engano. Ulisses e Diomedes não venceram apenas pela força; venceram pela fraude.

Isso me fez pensar no lugar da inteligência.

A inteligência é dom alto.

Mas quando se separa da justiça, torna-se perigosa.

O tolo pode errar por ignorância.

O inteligente pode construir abismos.

O mau conselheiro é mais terrível que muitos violentos porque oferece razões, planos, estratégias e justificativas. Ele sabe tornar o mal eficiente. Sabe fazer a injustiça parecer necessária. Sabe convencer outros a participar. Sabe mover reis, exércitos, cidades e companheiros.

Por isso Ulisses arde.

Não porque foi pequeno.

Mas porque foi grande de modo desordenado.

Pedi a Virgílio que me permitisse falar com ele.

Meu desejo era intenso. Queria ouvir aquele homem de fama imensa. Mas Virgílio disse que ele mesmo falaria, pois talvez os gregos não se dispusessem a responder a mim. Então, quando a chama se aproximou, meu guia chamou Ulisses, invocando o valor de sua poesia e pedindo que contasse o fim de sua vida.

A chama maior começou a mover sua ponta.

Parecia língua falando dentro do fogo.

Então Ulisses narrou.

Disse que, depois de deixar Circe, nem o amor pelo filho, nem a piedade pelo velho pai, nem o devido amor por Penélope puderam vencer nele o ardor de conhecer o mundo, os vícios humanos e o valor dos homens. Essa confissão era impressionante. Ele não voltou para casa como na tradição mais conhecida. Em sua fala, o desejo de conhecimento superou família, paternidade, matrimônio e dever.

Aqui estava o centro de sua alma.

Conhecer.

Ir além.

Experimentar.

Ver o mundo.

A princípio, isso parece nobre. O ser humano deseja saber. A inteligência busca horizontes. A coragem de navegar além do conhecido pode parecer grandeza. Mas em Ulisses, esse desejo se torna absoluto. O conhecimento deixa de ser ordenado ao bem e passa a dominar todos os vínculos. Nem filho, nem pai, nem esposa, nem limite sagrado conseguem detê-lo.

O desejo de saber se torna ídolo.

Ele reuniu seus companheiros, já velhos e cansados, e navegou para além das colunas de Hércules, limite do mundo conhecido, fronteira que indicava: “não ultrapasseis”. Ali, Ulisses fez um discurso. Chamou seus companheiros a considerar sua origem: não haviam nascido para viver como brutos, mas para buscar virtude e conhecimento.

Essas palavras são magníficas.

E perigosas.

Poucas frases poderiam soar tão elevadas. Ele apela à dignidade humana, à diferença entre homem e animal, à busca de virtude e saber. Mas esse discurso, por mais belo, conduz à transgressão do limite. É um mau conselho justamente porque usa uma verdade parcial para mover à desobediência. Sim, o homem não nasceu para viver como bruto. Sim, conhecimento e virtude são bens. Mas nenhum bem criado justifica ultrapassar a ordem divina por soberba.

Esse é o perigo máximo de Ulisses.

Ele não fala como vilão vulgar.

Fala como mestre da grandeza humana.

Mas sua grandeza está separada da obediência.

Ele convence os companheiros a ir além do permitido. E eles, inflamados por sua palavra, fazem dos remos asas para um voo louco. A imagem é bela e trágica: remos como asas. Navegação como ascensão. Mas a beleza da imagem esconde a loucura da direção.

Eles atravessam o limite.

Entram no hemisfério desconhecido.

Vêm novas estrelas.

O mundo parece abrir-se.

Durante meses, navegam por águas nunca vistas.

Então avistam uma montanha escura ao longe.

A montanha do Purgatório.

Mas eles não podiam alcançá-la por aquele caminho.

A subida da purificação não é conquista de curiosos.

Não se chega ao monte santo por aventura autônoma.

Ulisses vê o monte, mas não tem graça para subir.

Então vem o redemoinho.

Da nova terra surge uma tempestade. O mar gira a embarcação três vezes. Na quarta, a popa se levanta, a proa desce, como agradou a Outro, e o mar se fecha sobre eles.

A viagem termina em naufrágio.

Essa narração me deixou em silêncio.

Ulisses buscou conhecimento sem obediência.

Desejou virtude e saber, mas fora da ordem.

Ultrapassou o limite não por fé, mas por orgulho da inteligência.

Conduziu outros consigo.

E morreu diante do monte que não podia alcançar.

Aqui Dante cria uma das imagens mais poderosas de toda a Comédia: o homem natural, grandioso, racional, corajoso, desejoso de saber, chega até a borda do mistério, mas naufraga porque não pode tomar o caminho da salvação como conquista própria.

Ulisses é quase o contrário de Dante.

Dante também viaja além do mundo comum.

Dante também atravessa regiões invisíveis.

Dante também deseja conhecer.

Mas Dante vai guiado.

Dante vai por graça.

Dante vai porque foi chamado por uma corrente de misericórdia.

Dante obedece.

Ulisses, ao contrário, vai por impulso próprio, movido pelo ardor de conhecer. Ele não recebe missão do alto. Não tem Beatriz, não tem Lúcia, não tem Maria, não tem autorização celeste. Tem eloquência, coragem, inteligência e desejo. E isso não basta. Pelo contrário, quando absolutizado, destrói.

A diferença é decisiva:

Dante é peregrino.

Ulisses é transgressor heroico.

Dante desce para ser purificado e subir.

Ulisses navega para possuir o desconhecido.

Dante segue um guia.

Ulisses guia outros ao naufrágio.

Dante aprende o limite.

Ulisses ultrapassa o limite.

A figura de Ulisses me fez pensar no perigo de toda busca espiritual, intelectual ou filosófica que se separa da humildade. Não é errado buscar conhecimento. Mas o conhecimento, quando não se curva ao bem, torna-se chama que aprisiona. A inteligência precisa de fim correto. A curiosidade sem obediência não é sabedoria; é soberba em movimento.

O mau conselheiro, portanto, não é apenas quem dá conselho baixo.

Pode ser quem dá conselho elevado, mas orientado contra a ordem divina.

Ulisses não disse aos companheiros: “vamos ser vis.”

Disse: “vamos buscar virtude e conhecimento.”

E justamente por isso sua fala é tão perigosa. O mal mais profundo frequentemente usa palavras altas. A fraude superior não fala apenas em prazer, dinheiro ou vantagem. Ela fala em grandeza, destino, liberdade, coragem, saber, humanidade. Mas, se essas palavras são separadas de Deus, podem conduzir ao abismo.

Diomedes estava com ele na chama.

Mas quem fala é Ulisses.

Talvez porque nele a palavra seja central. Ele é o homem da astúcia verbal, do conselho poderoso, da narrativa capaz de mover companheiros. Sua língua, que inflamou outros, agora arde dentro de uma língua de fogo. A pena revela a palavra transformada em prisão.

A chama se calou.

Eu permaneci impressionado.

O Canto XXVI apresenta a oitava vala de Malebolge, onde os maus conselheiros ardem dentro de chamas. Dante encontra a chama dupla de Ulisses e Diomedes, punidos por suas fraudes, e Ulisses narra sua última viagem além das colunas de Hércules, movido pelo desejo de conhecer o mundo e os homens, até naufragar diante da montanha do Purgatório.

Ao seguir com Virgílio, levei comigo uma das lições mais severas da jornada:

a inteligência sem obediência pode ser perdição.

O desejo de conhecer é nobre quando ordenado.

Mas, quando se torna absoluto, rompe vínculos, despreza limites, seduz companheiros e transforma a busca do alto em aventura de apropriação.

Ulisses viu a montanha.

Mas não podia subir.

Porque o monte da purificação não é prêmio da soberba intelectual.

É caminho concedido à alma chamada, guiada e convertida.

A chama ficou para trás.

Mas sua luz continuou me advertindo:

nem toda luz é salvação.

Há chamas que iluminam enquanto queimam.